20 anos sem Tom

Tom-JobimPois é, chegamos a mais uma efeméride marcante neste ano de 2014. Num ano “bipolar”, em que fomos acometidos por uma imensa depressão com a morte de Ayrton Senna, do mesmo modo nos invadiu uma euforia coletiva depois que Roberto Baggio chutou aquele pênalti pelos ares. Mas, tal qual a doença bipolar que acabo de mencionar, os momentos de depressão soem ser mais duradouros que os de euforia, e este ano de 1994 não poderia ser diferente, pois que, prestes a terminar, no dia 8 de dezembro, nos anuncia o plantão da Globo que o nosso maestro soberano, Tom Jobim, acabara de morrer, vítima de um infarto, aos 67 anos de idade, em Nova York. Sim, o nosso maior compositor, o homem que levou a nossa música aos quatro cantos do mundo, morreu num mesmo 8 de dezembro e na mesma cidade em que, catorze anos antes, morria outro expoente mundial da música, John Lennon.

Foi uma notícia tão inesperada, o maestro foi assim, bem de repente, sem nem nos preparar para a sua partida com uma doença qualquer.

Tom Jobim escreveu e cantou muito o amor, muitas vezes com um tom melancólico, como se a tristeza mesmo fosse a sina de todo aquele que ama. A sua canção mais famosa traz a pergunta “por que tudo é tão triste?”, afinal de contas, aquela garota que vem e que passa não sabe o bem que sinto por ela. Admitia-se, é claro, momentos felizes, talvez estar diante da beleza desse mundo – a mera visão da linda garota que vai a caminho do mar já justificaria a felicidade. E ainda que se houvesse a certeza de que a felicidade estivesse fadada a acabar-se, mais cedo ou mais tarde, ao contrário da tristeza (a música se chama “A felicidade”, mas o seu início não deixa dúvida: tristeza não tem fim, felicidade, sim), os dois sentimentos pareciam habitar um mesmo coração, sem nenhum contrassenso. Os versos iniciais da canção que inaugurou a Bossa Nova traziam um apelo ao sentimento reificado: “vai, minha, tristeza, e diz a ela que, sem ela, não pode ser…” e continua com: “a realidade é que, sem ela, não há paz, não há beleza, é só tristeza e a melancolia que não sai de mim”.

A tristeza da separação e do amor não correspondido sempre foram bem explorados pelos nossos compositores, como é o caso de Lupicínio Rodrigues, cujo centenário se lembra este ano, e que escreveu aquela música chamada “Felicidade” (Felicidade foi-se embora, e a saudade no meu peito ainda mora). Para mim, essas são as melhores canções de Tom Jobim. A voz de Elis Regina enriquece a melodia de “Triste”: triste é viver na solidão, na dor cruel de uma paixão, triste é saber que ninguém pode viver de ilusão… A Ligia dos olhos castanhos (ou morenos, a depender da versão) enternece o mais duro coração, até mesmo daquele tipo distímico que não vai ao cinema, que não gosta de samba, não gosta nem de chuva, nem de sol. A versão de “Estrada branca” para o inglês virou “This happy madness”, algo como “esta louca alegria”, em que o cantor se pergunta o que, afinal, teria ocorrido com toda a sua tristeza, com os seus suspiros solitários, se agora está numa felicidade pueril por ter encontrado o amor.

E esses sentimentos antagônicos voltam a se misturar em mim, tal qual uma canção de Tom, nessa lembrança da sua última nota. Sei bem de onde eles vêm. A tristeza vem da saudade, da lástima por saber que o maestro se foi relativamente cedo, por certo, ainda teria tanto a nos mostrar. A felicidade vem da simples razão de ouvir o seu piano, hábito ainda mais intenso agora, no aniversário da sua morte. A verdade é que a imensa obra do maestro, que falou de tristeza, de melancolia, de separação, e de tantas outras coisas, deixou esta nossa vida, plena de tristezas, um pouquinho mais feliz.

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