Na depressão podem ocorrer sintomas psicóticos

Postado por  //  8 de setembro de 2011  //  Depressão  //  10 Comentários

Esta matéria que vai abaixo foi publicada no dia 29 de agosto e eu a retirei da página do Correio do Brasil.

Não é um texto fácil para quem não está habituado aos termos médicos e à pesquisa em psiquiatria. Mas ele trata de uma questão importante, que é a presença de sintomas psicóticos (delírios e alucinações) em pacientes que sofrem de depressão. Os sintomas psicóticos não são exclusivos da esquizofrenia, eles estão presentes em outras doenças. Na depressão, os delírios geralmente estão de acordo com o estado de humor da pessoa, por exemplo, são delírios de ruína financeira, de que os parentes estão doentes ou mortos, de que todos os seus órgãos estão apodrecidos (este tipo de delírio leva um nome especial, o delírio de Cotard). Geralmente, a depressão que se apresenta com sintomas psicóticos tende a ser mais grave.

O seu tratamento é feito combinado o uso de antidepressivos e antipsicóticos, mas alguns casos só apresentam remissão com a eletroconvulsoterapia, a ECT ou eletrochoque.

Este estudo que está sendo realizado em Ribeirão Preto certamente vai contribuir para um melhor entendimento deste quadro clínico e, nos ajudando a entender melhor a doença e como ela afeta o cérebro, saberemos como tratá-la melhor.

Pessoas com depressão podem ter manifestações psicóticas

 Pessoas com depressão muitas vezes apresentam também manifestações psicóticas. Mas, até agora, a medicina não tem métodos objetivos para diferenciar esses casos dos quadros depressivos comuns, o que dificulta a adoção de tratamentos específicos.

Correlacionando dados de neuroimagem e testes clínicos, um grupo de pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da Universidade de São Paulo (USP) dá os primeiros passos para definir as diferenças clínicas e biológicas entre a depressão psicótica e não psicótica.

Dados preliminares de um estudo coordenado por Cristina Marta Del Ben, do Departamento de Neurociência e Comportamento da FMRP-USP, indicam que pacientes com depressão psicótica apresentam alterações no volume de determinadas estruturas cerebrais.

O estudo avaliou 23 pacientes com depressão psicótica, 25 com depressão não psicótica e 29 pessoas saudáveis para controle. O objetivo era observar as diferenças entre a depressão com e sem psicose.

– Mas achamos importante correlacionar esses resultados de alterações biológicas com medidas clínicas e funções psíquicas mais finas. Por isso, combinamos esses dados a uma avaliação clínica detalhada –, disse Del Ben.

Os dados de neuroimagem foram obtidos com um scanner de 3 tesla. Os pacientes também foram submetidos a uma espectroscopia para detectar a presença de uma série de metabólitos. Os dados foram então analisados por um software específico.

– Mas não podíamos nos restringir aos dados biológicos, pois era preciso considerar a emoção e o comportamento envolvidos nas manifestações da doença. Por isso, desenvolvemos também paradigmas para avaliar as interferências no processamento de memória verbal e visual envolvendo estímulos emocionais –, disse Del Ben.

Em um dos testes, os pacientes tinham que memorizar uma lista de 15 palavras com significado positivo, negativo ou neutro. Uma segunda lista de 15 palavras era então apresentada e os participantes deveriam identificar as palavras que já estavam presentes antes.

Outro teste semelhante foi feito com imagens positivas, negativas e neutras. Um terceiro teste envolvia a identificação de rostos humanos expressando diferentes tipos de emoção.

– Embora todos os pacientes tivessem depressão com o mesmo grau de gravidade, aqueles que apresentavam a manifestação psicótica demonstraram uma tendência maior a ficar atentos ao negativo. Não percebiam estímulos positivos que já tinham visto, ou achavam que tinham visto estímulos negativos que não tinham visto. É como se eles apresentassem um viés para o que é ruim –, disse Del Ben.

Algumas estruturas cerebrais dos pacientes com depressão psicótica apresentaram alterações no volume. A principal diferença ocorreu no istmo do giro do cíngulo, que estava reduzido nesses pacientes. De acordo com Del Ben, essa estrutura faz parte do sistema límbico, uma região do cérebro responsável pelas emoções.

– A redução da parte posterior do giro do cíngulo foi significativa nos pacientes com depressão psicótica, distinguindo-os muito bem dos não psicóticos. Além disso, há uma correlação com a gravidade. Quanto mais grave o caso do paciente psicótico, menor se apresentava a estrutura –, apontou.

Tratamento específico

Segundo a cientista, os dados são preliminares e foram obtidos há cerca de dois meses.

– Apenas começamos a fazer as correlações. Mas agora temos dados para fazer a conexão entre as alterações nas estruturas cerebrais e essa tendência a superestimar o lado negativo das coisas –, afirmou.

O istmo do cíngulo faz a conexão entre o lobo occipital – uma estrutura importante para o processamento visual e a percepção do estímulo externo – com o sistema límbico. Segundo a pesquisadora, o trabalho abre caminho para levantar até que ponto a depressão com psicose pode estar ligada a uma percepção distorcida de estímulo externo.

– É uma possibilidade que estamos levantando. A possibilidade de uma distorção na percepção do estímulo externo é, a princípio, coerente com a presença de delírio e alucinação, típicas da manifestação psicótica. Ainda temos que explorar esse possível problema na integração entre mundo externo e percepção subjetiva –, explicou.

Segundo Del Ben, é possível que a depressão psicótica e não psicótica sejam condições distintas de transtorno mental, que mereceriam abordagens específicas. Por isso, é importante estudar essa diferença.

– Entender a fisiopatogenia da doença é fundamental para a psiquiatria. Estamos aquém de outras especialidades médicas nessa área. É preciso aprofundar nossa compreensão de todo o processo para intervir de maneira mais apropriada. Atualmente, os pacientes são medicados com antidepressivos que causam uma modificação bastante inespecífica, no cérebro todo. Ainda não sabemos se é possível utilizar um tratamento mais específico e personalizado –, afirmou.

Além de Del Ben, participaram do trabalho a pós-doutoranda Maristela Schaufelberger Spanghero, atualmente docente da FMRP, e as alunas de mestrado Aline Gerbasi Balestra e Helena Pinho de Sá.

10 Comentários em "Na depressão podem ocorrer sintomas psicóticos"

  1. Carlos 30 de janeiro de 2013 às 16:46 ·

    Tenho depressão há um ano. Lido bem com ela, nunca tendo pensado em me matar, pois a minha vida tem sentido e além de tudo eu gosto dela. Não tomo remédios e meu estado nem piora e nem melhora. Quero tentar caminhar dessa forma, lutando e usando meus recursos próprios p superá-la ou conviver com ela. Decidi por mim que só irei tomar remédio se um dia chegar a pensar em morte. Mas uma coisa q me falaram é q eu posso chegar a ter psicose pela depressão. Dr, se minha depressão não piorar eu corro esse risco? Acredito que só se ela piorar não é? Eu estou a acompanhando bem de perto…

    • Dr. Deyvis Rocha 18 de fevereiro de 2013 às 19:26 ·

      Olá, Carlos,

      Que bom que você está conseguindo lidar bem com os seus sintomas.
      Os quadros psicóticos na depressão só ocorrem nos casos mais graves, mas como você mesmo disse que está acompanhando a sua de perto, certamente você vai perceber se ela estiver ficando mais grave e vai procurar o tratamento antes de chegar a esse nível.
      Só recomendo que você não deixe para procurar o tratamento somente quando estiver pensando em morte. Se, por acaso, ela chegar em um estágio que esteja atrapalhando o seu desempenho no dia a dia, aí já é o momento de procurar um psiquiatra.

      Att,
      Deyvis

  2. Luís Fernando 23 de abril de 2013 às 15:11 ·

    Faço tratamento para depressão psicótica há algum tempo, mas não tenho melhora. Perdi a esperança. Venho de uma condição de fragilidade socioeconômica e tenho dificuldades de comprar os remédios. Minhas crises de suicídio sempre voltam. A qualquer momento posso morrer. Tenho a sensação de que vou morrer e que as pessoas são essencialmente más, que o mundo é mau. Não sei mais o que fazer nem se a psiquiatria pode me ajudar.

    • Dr. Deyvis Rocha 29 de abril de 2013 às 0:28 ·

      Oi, Luís Fernando,

      Por que você não procura tratamento em um CAPS Centro de Atenção Psicossocial)? São estabelecimentos públicos que contam com psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, etc, que podem ajudá-lo bastante, frente a essa situação que você vem passando. Não sei onde você mora, mas em muitos postos de saúde há medicações psiquiatras que podem ser retiradas gratuitamente, mediante uma prescrição médica.
      Penso que uma psicoterapia, que pode ser oferecida pelo CAPS, seja uma boa alternativa para você, que tem essa visão peculiar do mundo e das pessoas.

      Boa sorte,
      Deyvis

  3. Gislene Felício 9 de maio de 2013 às 17:33 ·

    Olá, tudo bem? Meu tem 22 anos e exatamente no dia do aniversário dele dia 15 de abril deste ano ele apresentou os primeiros sintomas de uma crise psicótica até então desconhecida por nós.
    Foi muito rápido, a noite ele teve os primeiros sintomas e no dia seguinte foi se agravando. Ele se sentia muito precionado com horário de aula, trabalho, aulas de Inglês a noite e Monitoramento num curso de final de semana no Instituto Tecnico Federal. Ele foi atendido no CAPS no dia da crise, sendo que esta durou 7 dias, ele está reagindo bem ao tratamento medicamentoso e descansando bastante, mas não conseguiu retornar ao trabalho, sentiu muita anciedade, as aulas eles estão de recesso e o inglês não conseguiu voltar ainda, a três dias atráz ele teve uma regressão, ficando bastante deprimido, a pior crise graças a Deus passou e não se repetiu. Estou com duvidas quanto ao procedimento família, o que podemos fazer para melhor ajuda-lo? dentro das minhas condições fico bastante com ele, não o deixo sair sozinho, vou ao médico com ele, ainda não conseguimos psicológo para o acompanhento.
    Quando preciso recorro ao CAPS. Devemos insistir para que ele retome as atividades?
    Obrigada,
    Gislene.

    • Dr. Deyvis Rocha 19 de maio de 2013 às 0:12 ·

      Oi, Gislene, recorra sim sempre ao CAPS.

      Esses momentos iniciais são os mais difíceis para as famílias, pois é tudo muito novo e as pessoas têm que aprender a conviver com uma realidade totalmente nova, em que de repende um membro da família precisa recorrer a um psiquiatra e não consegue dar sequência à sua vida.

      O bom é que ele já conseguiu tratamento bem rápido, o que aumentam muito as chances de que ele volte ao seu estado normal, ainda que isso possa demorar algumas semanas.

      Digo que à medida que ele for melhorando, vai retomando às atividades. É melhor não ser insistente nesse momento.

      Mas o CAPS pode ajudar muito nesse processo de readaptação à rotina. Veja lá com eles. Não procure o CAPS somente se ele estiver em crise.

      Saudações,
      Deyvis

  4. maria cristina 12 de junho de 2013 às 16:22 ·

    tenho muita depressão meu psiquiatra disse que estou com depressão grave pois tenho vontade de morrer a vezes tenho o pressentimento que vou elouquecer meu psiquiatra ja mudou varias vezes meus remedios e nao consigo corresponder aos medicamentos as vezes eu acho que estou com outra doença alguem pode me ajudar

    • Dr. Deyvis Rocha 19 de junho de 2013 às 17:50 ·

      Olá, Maria Cristina,

      Sempre há a possibilidade de você buscar a opinião de um outro psiquiatra, se há dúvidas quanto aos procedimentos do seu psiquiatra. Uma consulta de segunda opinião já é comum nas outras áreas da medicina.

      Atenciosamente,
      Deyvis

  5. Marianne 9 de agosto de 2013 às 6:51 ·

    Tenho depressão grave há 19 anos. Já fiz vários tratamentos com psiquiatra e terapeuta, mas não obtive a cura. Vivo uma vida controlada, mas com as emoções sempre muito abaladas, em um sofrimento constante e esmagador. Mas prossigo tolerando isso. O que me causa mais sofrimento são pensamentos perturbadores, delirantes, de culpa, e que não me deixam viver em liberdade. Os médicos sempre dizem que tenho depressão. Mas que depressão é essa que não sai da minha vida? Preciso de um diagnóstico preciso e da indicação de um tratamento eficaz.

    • Dr. Deyvis Rocha 9 de agosto de 2013 às 16:05 ·

      Olá, Boa tarde,

      A depressão é uma doença crônica em muitos casos e a pessoa pode sofrer novos episódios dos seus sintomas de tempos em tempos. Quando é assim, é preferível que a medicação seja usada de maneira preventiva.
      Hoje em dia, o tratamento da depressão é bastante eficaz, não sei se você já esgotou todos os tratamentos possíveis, tanto medicamentosos como psicoterapêuticos, sem contar a eletroconvulsoterapia, conhecida como eletrochoque.

      Desejo-lhe sorte e melhoras,
      Deyvis

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