Palmitato de paliperidona: ainda longe do SUS

Postado por  //  7 de dezembro de 2012  //  Esquizofrenia  //  Comentários desativados

A paliperidona em sua forma injetável de longa ação, o palmitato de palperidona, é um dos mais novos antipsicóticos disponíveis no mercado para o tratamento da esquizofrenia.

Há vários antipsicóticos disponíveis nas farmácias, tanto os típicos quanto os atípicos. Chamamos de antipsicóticos típicos (ou de primeira geração) aqueles mais antigos, desenvolvidos entre os anos 50 e os anos 80 do século passado. O uso desse tipo de antipsicótico pode provocar efeitos colaterais na musculatura, podendo deixar a pessoa com os movimentos lentificados, provocando tremores e rigidez nos membros. Por outro lado, os antipsicóticos atípicos (ou de segunda geração) foram lançados no mercado a partir dos anos 90 e o seu uso tende a não provoca esses efeitos colaterais no sistema locomotor, por isso mesmo são as medicações preferencialmente prescritas pelos psiquiatra aos pacientes com esquizofrenia.

A principal forma de uso dessas medicações, típicas e atípicas, é a oral, isto é, com comprimidos tomados uma ou duas vezes ao dia. No entanto, nem todos os pacientes com esquizofrenia aceitam tomar os remédios, isto é, não têm adesão ao tratamento (um fato bastante comum).

A falta de adesão se dá por várias razões, entre elas as principais são:

1. A pessoa não aceita que tem uma doença e que ela precisa tomar medicações;

2. Os efeitos colaterais das medicações podem ser muito desagradáveis e ninguém vai querer tomar uma medicação por muito tempo se ela causa algum tipo de desconforto.

Para lidar com a falta de adesão dos pacientes, foram desenvolvidos antipsicóticos que não precisam ser tomados todos os dias. Ele são fabricados em forma de uma solução injetável no músculo e com apenas uma ou duas injeções por mês é possível ter um nível suficiente de antipsicótico no organismo para tratar os sintomas da esquizofrenia, como os delírios e as alucinações, e prevenir a recaídas da doença.

Infelizmente, a grande quantidade de opções farmacológicas de antipsicóticos a serem tomados por via oral não se reflete no número de antipsicóticos disponíveis na forma injetável. Na rede das farmácias do SUS, onde as medicações podem ser retiradas de graça, nós dispomos apenas do decanoato de haloperidol como formulação injetável de longa ação. Como essa é uma medicação típica, há mais chances do paciente desenvolver problemas como rigidez muscular e tremores com o seu uso. É uma situação muito difícil para o psiquiatra quando o paciente não adere ao tratamento e te efeitos colaterais com o decanoato de haloperidol. O que fazer?, nos perguntamos.

Palmitato de paliperidona!, seria a resposta. Esse antipsicótico é atípico tão bom como os outros antipsicóticos, com a vantagem imensa de que pode ser aplicado um vez por mês e muito dificilmente vai causar problemas no sistema locomotor.

A felicidade com essa nova medicação no entanto não dura muito, pois é muito cara (para lá de mil Reais) e a maior parte da nossa população não tem condições de arcar com os seus custos. A solução seria o Governo bancar a compra dessas medicações, como faz com outros antipsicóticos, como a risperidona, a quetiapina, a olanzapina, a ziprasidona, o aripiprazol e a clozapina, que podem ser retiradas de graça (na verdade nunca é de graça, pois o Governo compra essas medicações com o dinheiro que nós damos a ele) nas farmácias especiais que fornecem medicamentos de alto custo.

Entretanto, Ministério da Saúde publicou recentemente um relatório sobre a incorporação do palmitato de paliperidona no SUS e as autoridades federais não recomendaram o uso desse antipsicótico para o tratamento da esquizofrenia. Isso quer dizer essa medicação não vai estar disponível no SUS por um bom tempo.

É uma pena. Conheço vários pacientes que costumam ser internados porque têm recaídas da esquizofrenia provocadas pelo abandono do remédio e que tem muito efeitos ruins quando tomam as injeções de decanoato de haloperidol.

A alegação final do Ministério foi de que ”considerou-se que o arsenal medicamentoso atualmente disponibilizado no SUS é suficiente para atender às necessidades dos portadores da doença, devendo os esforços do sistema se concentrar na oferta de práticas que garantam o atendimento integral em saúde mental, promovam o melhor conhecimento e aceitação da doença entre pacientes e familiares e favoreçam a adesão aos tratamentos e a maximização dos resultados.”

Entendo as razões do nosso Governo, mas não sei porque uma determinada ação que promova “o melhor conhecimento e aceitação da doença” não pode ocorre juntamente a outra ação concomitante que é disponibilizar uma medicação eficaz e com poucos efeitos colaterais para os pacientes que não aderem ao tratamento.

O relatório do Ministério da Saúde pode ser conferido nesse link.

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