A AIDS e os Transtornos Mentais

Dia primeiro de dezembro foi estabelecido pela Organização Mundial de Saúde como Dia Mundial de combate à AIDS ou SIDA, a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida.

A propósito desta data, celebrada pela primeira vez em 1988, pensei em falar algumas coisas sobre as relações entre a Psiquiatria, as doenças mentais, e a AIDS.

A associação entre os transtornos psiquiátricos e a infecção pelo HIV, o vírus que provoca a AIDS, é bastante frequente. Alguns transtornos, como o uso e abuso de substâncias e o transtorno afetivo bipolar levam as pessoas acometidas a ter um comportamento as expõe a um risco maior de adquirir a infecção. As circunstâncias que vêm com o diagnóstico, como a rejeição social, a perda de emprego, o preconceito, o afastamento dos amigos e a própria reação ao diagnóstico, como o medo de morrer, podem fazer com que a pessoa desenvolva algum transtorno. Por outro lado, há a ação do vírus no sistema nervoso central e isso já é capaz de provocar algum transtorno com manifestação psíquica. As doenças oportunistas que aparecem quando a imunidade está baixa também favorecem o aparecimento do transtorno mental.

Antigamente, no começo da epidemia, era comum que os quadros psiquiátricos fossem provenientes da ação direta do vírus, mas com o arsenal terapêutico eficiente, a infestação do vírus ficou sob controle, mas, em compensação, os chamados medicamentos antirretrovirais têm alguns efeitos colaterais psiquiátricos.

O quadro psiquiátrico mais frequente em pacientes com o HIV/AIDS é a depressão. A depressão piora a adesão ao tratamento com os antirretrovirais e isso leva a uma menor sobrevida. A depressão pode ser encarada como uma reação normal ao fato de ser portador de uma doença ainda hoje fatal, o que é ruim, pois a pessoa afetada sofre, porém, não procura tratamento adequado. A depressão pode surgir, como dito acima, da ação direta do HIV ou de doenças que se manifestam com a baixa da imunidade, e também por efeito colateral das medicações.

Os quadros de mania (em que a pessoa fica agitada, tem ideias de grandeza, fala rápido e de maneira excessiva, pode gastar muito dinheiro em compras desnecessárias) é mais comum que surja com as afecções do sistema nervoso central secundárias à infecção e à imunodeficiência, como a toxoplasmose, a sífilis e a tuberculose, além do uso de medicações como o AZT ou corticoides.

Os transtornos de ansiedade também são muito frequentes em indivíduos com HIV/AIDS. Ocorrem desde crises de pânico, fobias, TOC, estresse pós-traumático e ansiedade generalizada. Sem dúvida, os sintomas ansiosos também têm um forte componente ambiental, não apenas orgânico. Os pacientes infectados são discriminados, sentem medo do isolamento, do abandono e da morte, ou do definhamento, com a progressão da doença.

Os quadros psicóticos também podem ocorrer, associados a vários fatores, como ação do vírus, manifestação do processo demencial provocado pelo vírus ou efeitos adversos das medicações.

Temos também o abuso e a dependência de substâncias, que pode já existir antes da infecção e ser um fator importante para a aquisição da doença.

É importante falar também sobre o suicídio. É frequente que o portador do HIV/AIDS tenha pensamentos de morte. Os maiores fatores de risco para o suicídio são as tentativas prévias de cometê-lo, os quadros de depressão moderados a graves, história familiar de depressão, solidão e apoio social insatisfatório, experiências negativas associadas à infecção (como história de violência), história de homo ou bissexualismo e de uso de drogas.

Enfim, todos os quadros descritos acima são passíveis de tratamento, seja com medicação, seja com psicoterapia. O fim da discriminação e do estigma, que já se vem alcançando nos últimos tempos (mas que todavia existem) é um bom começo no sentido de diminuir a incidência de transtornos mentais na população infectada pelo HIV ou com AIDS.

 

(Visited 255 times, 1 visits today)