A demência da Dama de Ferro

Uma das maneiras de se aproveitar o carnaval na cidade de São Paulo é ir ao cinema tranquilamente, sem enfrentar congestionamentos e assim se atualizar com os lançamentos mais recentes.

No meu caso, fui ontem ao Reserva Cultural e lá assiti “A Dama de Ferro“, filme que pode dar à Meryl Streep a sua 3a. estatueta do Oscar (aposto as minhas fichas nisso), ela que já é a recordista de indicações ao prêmio de melhor atriz da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (ganhou como atriz coadjuvante em 1980 por “Kramer vs. Kramer” e como atriz principal por “A Escolha de Sofia”, em 1983).

Mas, apesar de ser um tema que muito me agrada, não estou aqui para falar de cinema, ou melhor, não apenas de cinema propriamente, mas da relação do filme que acabei de ver com a psiquiatria.

A Dama de Ferro a qual o título remete é a alcunha da ex-primeira-ministra da Grã-Bretanha, Margaret Thatcher, personagem política que fez história ao ser a primeira mulher a ocupar o posto de chefe de governo britânico.

O filme discorre sobre a juventude de Margaret Roberts, filha de um comerciante, e o seu percurso que vai dos momentos em que se escondia dos ataques aéreos alemães na Segunda Guerra, à sua aceitação na prestigiosa e elitista Universidade de Oxford, ao seu engajamento político no partido conservador, quando conheceu o seu companheiro de uma vida, Denis Thatcher, até chegar à Londres, primeiro como deputada, depois como Ministra da Educação, até alcançar o cargo máximo que lhe alçou ao posto de mulher mais poderosa do século XX.

Pois bem, essa mulher tão poderosa outrora agora convive com uma doença mental tão comum em nossos dias e que se já não acometeu alguém de nossa família, conhecemos alguém que teve a família atingida por ela. Margaret Thatcher sofre de um quadro demencial, muito provavelmente decorrente da Doença de Alzheimer.

Essa doença é a forma mais comum de demência entre os idosos do mundo ocidental. O seu nome vem do neuropsiquiatra alemão Alois Alzheimer, que foi quem primeiro descreveu o seu quadro clínico e patológico.

Como em todos os quadros demenciais, na Doença de Alzheimer ocorre uma perda das funções cognitivas e alterações de comportamento na pessoa acometida.

Por funções cognitivas, entendemos as capacidades de memória, de atenção, de organização e planejamento para a realização de uma tarefa, de resolução de problemas, capacidades essas que foram sendo adquiridas e aprimoradas ao longo da nossa vida, mas que vão sendo perdidas com o processo da doença. As alterações de comportamento indicam que a pessoa tem perda de sua autonomia, de sua independência e ficam à mercê de terceiros que a ajudam em tarefas rotineiras. Além disso, a pessoa que antes era ativa pode tornar-se apática e deixar os seus envolvimentos sociais, a pessoa que era meticulosa torna-se descuidada.

Na Doença de Alzheimer, o que mais chama a atenção é a disfunção de memória. O que está mais afetado é a memória para fatos recentes, que se verifica quando a pessoa não lembra daquilo que há pouco lhe foi dito. A família costuma perceber que a pessoa começa a fazer as mesmas perguntas frequentemente, pois parece não lembrar da resposta que já lhe fora dada. Chama a atenção também dos familiares que aquele que está acometido da doença tem maior facilidade para falar sobre fatos remotos do que sobre o que aconteceu ontem, já que, na doença, a memória para fatos remotos tende a se manter intacta até os estágios mais avançados da doença.

Outra alteração são as confabulações, que também se relacionam à alteração de memória. As confabulações são como enxertos de memórias que podem ser tanto falsas em seus conteúdos como podem ser mal colocadas na situação, sendo evocadas em momentos inapropriados, ainda que sejam verdadeiras.

A capacidade de viver independentemente fica comprometida porque progressivamente outras funções cognitivas vão sendo afetadas. Essas funções englobam o planejamento e a execução de tarefas complexas visando um objetivo, a alternância de comportamentos frente às situações diferentes que vivenciamos, e a própria autocrítica. A pessoa perde a capacidade de orientação espacial, por isso já não reconhece mais lugares antes vistos, já não sabe o caminho de volta para casa.

As alterações do comportamento da Doença de Alzheimer são frequentes e as principais são: apatia, ansiedade e depressão, irritabilidade, agressão verbal e física, comportamentos repetitivos, andar incessante e alterações do sono e do apetite.

No filme, vemos a ex-primeira-ministra na atualidade, já com mais de 80 anos, manifestando pequenos lapsos de memória. Ela não se recorda, por exemplo, do valor da caixa de leite que o vendedor da quitanda acabara de lhe dizer, ou que havia combinado com a filha de retirar as coisas do falecido marido do seu quarto. Ela não lembra sequer que o filho já não mora mais na Inglaterra, que agora ele vive na África do Sul.

Mais do que isso, pequenos fatos do seu dia a dia a remetem a acontecimentos marcantes de sua vida, e esse é o recurso que o filme utiliza para que fiquemos sabendo da historia de Thatcher, contada em flashbacks. Como é próprio da Doença de Alzheimer, como dito acima, são os fatos mais remotos que vêm mais facilmente à mente de Thatcher, e, às vezes, ela está conversando com outras pessoas, mas o que ela diz tem pouco a ver com o assunto em discussão e mais parece que ela está fazendo algum discurso à nação em guerra (vejam acima o que eu falei sobre confabulação).

Na Demência de Alzheimer, um outro quadro clínico que pode ocorrer são os sintomas psicóticos, que são, como já expliquei em outros posts, os sintomas de delírio e alucinações.  No filme, uma presença constante no dia a dia da Dama de Ferro idosa e demenciada é o seu falecido marido Denis, morto em 2003. Ele interage quase o tempo todo com a Margaret Thatcher da atualidade, como uma alucinação. Há um momento curioso e que tem bastante a ver com o que presenciamos na rotina clínica, que é o momento em que Thatcher liga todos os aparelhos da casa e a TV no maior volume possível para daí não conseguir escutar a voz do marido, como muitos pacientes fazem para tentar lidar com as alucinações auditivas. O que resulta infrutífero para Thatcher, porque ela passa a ouvir a voz do marido na programação televisiva, que passa a transmitir fatos de sua vida passada (também uma queixa muito comum dos pacientes psicóticos).

Mas é claro que a maneira como o filme representa essas alucinações de Thatcher pouco tem a ver com o que se passa com um paciente com Doença de Alzheimer. Aliás, as doenças mentais no cinema em geral não são fiéis aos quadros clínico reais, como ocorre, por exemplo, no filme “Uma Mente Brilhante”.

As alucinações nunca são tão complexas como o que vemos pelos olhos da ex-primeira ministra, em geral temos algumas vozes vozes acusatórias, vozes que conversam entre si a respeito da pessoa ou que chamam pelo nome da pessoa, e as alucinações visuais são mais raras e não têm todos esses detalhes físicos como foi representado no filme.

Mas está lá, no filme, toda a dificuldade que um paciente com Demência de Alzheimer enfrenta. E essa doença pode afetar qualquer um e mais e mais gente, à medida em que a população vai envelhecendo. Mesmo aquela que já foi a mulher mais poderosa do mundo não escapa ao seu destino, e agora vive cercada por cuidados de outras pessoas, que vão à loucura em um dia em que ela escapa do cerco para ir a uma quitanda (pois a sua orientação espacial deficitária poderia tê-la feito se perder ao não encontrar em sua mente o “mapa”do caminho para casa). Margaret Thatcher é uma mulher que trava uma luta agora não contra os partidos de oposição, contra os sindicatos, contra o terrorismo do IRA ou conta a Argentina, contra quem lutou pela soberania das Ilhas Malvinas, mas contra si mesma, contra as limitações que a doença lhe impõe e uma vitória nessa luta pode ser simplesmente mostrar que é capaz de lavar a própria louça.

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