A memória de um primeiro de maio de 20 anos atrás

O que você fazia no dia primeiro de maio de 1994?
Faz 20 anos, e parece que foi ontem. Quer dizer, eu me lembro do que aconteceu naquele fatídico dia tanto como me lembro do que se passou ontem em minha vida.
Pois foi o dia em que Ayrton Senna Morreu.
Era domingo. Um feriado no domingo. Que desperdício. Mas sei que era domingo porque ao acordar eu fui direto para a TV para ver a corrida. Eu não perdia um grande prêmio desde meados dos anos 80, quando o meu grande ídolo era, na verdade Nelson Piquet.
No momento da colisão fatal da sua Williams, eu comia as tapiocas que a minha mãe havia feito para o café da manhã.
A corrida seguiu em frente e eu fiquei aguardando informações sobre o seu estado de saúde.
Já durante a tarde, quando jogava Mortal Kombat na casa do meu amigo André, os acordes do plantão de jornalismo da Rede Globo começaram a soar… estava confirmada a sua morte cerebral.
Desolado, cheguei em casa no começo da noite e mais tarde fui acompanhar o Fantástico inteiramente dedicado a ele.
Antes de dormir, no banho, a água do chuveiro que me molhava o rosto se mesclou com as lágrimas que me escorriam dos olhos. Seria o fim desse dia, se esse dia não durasse já 20 anos.
A nossa memória é assim, como muitos já devem ter intuído. Os momentos de maior relevância afetiva são os que mais nos recordamos, sejam esses momentos bons ou ruins. É por isso que muitos norte-americanos sabem exatamente onde estavam no dia em que mataram o presidente Kennedy e muitos torcedores lembram do dia em que o seu time foi campeão.
Isso ocorre porque os hormônios do estresse são, junto com o complexo amigdaloide do cérebro, são os principais moduladores da consolidação da memória de longa duração.
Os hormônios liberados quando uma determinada situação atrai a nossa atenção, causando-nos um aumento no nosso estado de alerta, como a adrenalina e o cortisol, levam a uma adaptação do nosso corpo, que nos prepara para reagir diante dessa situação nova: taquicardia, aumento do tônus muscular e da pressão arterial, também contribuem para aumentar ou diminuir a nossa capacidade de reter os fatos na memória, e também para evocar esses fatos. Um certo grau de alerta e de hormônios do estresse circulante no corpo é importante para nos mantermos concentrados numa prova da faculdade ou num concurso, e permite que possamos trazer à tona boa parte do material que estudamos com tanto afinco. Se, por outro lado, a produção hormonal é tão grande que nos leva a ter sintomas de ansiedade, a capacidade de recordação diminui e surgem então os famosos “brancos”. Não é à toa que comumente as pessoas que sofrem de transtornos ansiosos se queixem de esquecimentos…
Naquele domingo que parece que foi ontem, um dos dias mais tristes da minha vida, portanto, com uma incrível carga emocional, todos esses fenômenos estavam em vigor e por isso a minha memória dos fatos ser ainda tão presente que nem parece que pertence ao passado.

Cahill L, McGaugh JL. Mechanisms of emotional arousal and lasting declarative memory. Trends Neurosci. 1998 Jul;21(7):294-9.

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