A mentira e a psiquiatria

Era uma vez um oficial da cavalaria alemã que viveu no século XVIII e que lutou em algumas guerras e quando se aposentou começou a contar aos amigos e a quem mais quisesse ouvir as suas extraordinárias proezas no campo de batalha, assim como as suas aventuras de caçador e desportista, se bem que a opinião dos seus ouvintes se dividia entre quem achasse que as histórias que Karl Friedrich Hieronymus, Freihher von Münchhausen, mais conhecido como Barão de Munhausen, contava eram um tanto exageradas e quem considerasse que elas eram mentiras deslavadas.

Talvez o velho Barão de Munchausen não tenha sido o primeiro mentiroso de que se tem notícia. Certamente, não foi o último.

Afinal, quem nunca contou uma mentirinha aqui e ali? Falou que foi naquela festa onde estava toda a galera e não foi? Disse que “pegou” aquela gata, mas não “pegou” ninguém? Mentir para si mesmo, então, é muito fácil (e frequente)! A virada do ano que o diga. Todo mundo promete fazer uma dieta para emagrecer,  diz que vai parar de fumar, de beber e, no fim, nada. Mas não se preocupe, os especialistas afirmam que uma embromaçãozinha de vez em quando é normal. Entretanto, a quantidade de mentiras que suma pessoa conta pode ser tanta que ela pode merecer um diagnóstico de mentiroso patológico, de mitômano.

Que tal o exemplo de alguns filmes? Você se lembra do “O Mentiroso”, um advogado, interpretado por Jim Carrey? O personagem conta milhares de mentiras para se dar bem, até que seu filho, no dia do próprio aniversário, faz um pedido para que o pai pare de mentir e quando o desejo é atendido, o personagem de Carrey se envolve em várias confusões porque não consegue dizer nada que não seja a pura verdade.

E na TV, quem não se recorda com saudades de um dos personagens mais queridos de Chico Anysio, o Pantaleão e suas histórias fantásticas? É mentira, Terta?

No caso dos mitômanos, que são esses indivíduos com tendência compulsiva para a mentira, o ato de mentir pode ser tão frequente e tão despropositado, isto é, sem que com a mentira se queira obter benefícios financeiros ou ausência de um dever, por exemplo, que podemos estabelecer um diagnóstico de pseudologia fantástica ou mitomania.

A categoria diagnóstica em que esses mentirosos estão inseridos é dos Transtornos Factícios.  Raramente, a pessoa vai procurar um psiquiatra por causa das mentiras que conta. O que é mais comum chegar aos hospitais e ambulatórios é o indivíduo que produz intencionalmente sinais e sintomas de transtornos clínicos e mentais cujo único propósito é o de assumir o papel de doente sem nenhum incentivo ou benefício externo. Esse casos vão desde pessoas que fingem ter um surto psicótico ou sofrer de amnésia, até indivíduos que simulam vários sintomas e sinais de doenças físicas e se submetem a várias intervenções cirúrgicas abdominais para encontrar um mal que eles fingem ter. É justamente a esse tipo de comportamento que alguém decidiu dar o nome de Síndrome de Munchausen, em homenagem ao nosso querido barão alemão.

O hábito de mentir é bastante comum, mas não se sabe ainda que fatores genéticos ou sociais transformar uma pessoa em um mentiroso patológico. Em geral, trata-se de pessoas com uma estrutura de personalidade e de identidade própria muito frágeis.

Mentir em demasia pode também estar associado a outros quadros psiquiátricos, como os transtornos de personalidade borderline e antissocial..

Não há consenso entre os especialistas se os mentirosos patológicos realmente acreditam naquilo que estão contando, ou até que ponto eles pensam que as suas histórias são verdadeiras ou não. Em geral, eles um bom julgamento sobre outros aspectos da vida, o que faz pensar que também sabem distinguir bem o que é real e o que não é em suas histórias.

As pessoas que têm uma tendência muito grande para mentir podem até ter uma vida exitosa e produtiva, mas não é incomum que essas mentiras causem algum tipo de empecilho com a lei e, claro, o desmascaramento das mentiras pode trazer sérios danos à reputação da pessoa.

Já o indivíduo, digamos assim, consciente de suas mentiras, é aquele que conta algo para se dar bem. Se ele simula uma doença qualquer, o seu propósito é obter algum tipo de benefício financeiro ou evitar alguma obrigação, como o trabalho, fugir da polícia ou mesmo obter acomodação e alimentação gratuita (alguém aí lembrou de “Um Estranho no Ninho”?). Nesse caso, a mentira acaba quando ela já não é considerada lucrativa ou quando o risco de mentir se torna grande demais.

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