A primeira vez que ela foi ao psiquiatra

Carnaval do Arlequim - Joan Miró, 1924-25Jéssica se levanta rapidamente, ajeita a bolsa no ombro e vai andando com a cabeça baixa à sala de onde acaba de ouvir o seu nome ser anunciado. Alta, esguia, cabelos negros presos, óculos de grau com armação ao estilo aviador. Parece ter menos que os 28 anos que constam na sua ficha de atendimento.
Após uma breve troca de cumprimentos com o médico que a esperava no vão da porta do consultório, ambos tomam os seus assentos.
Jéssica não espera pela pergunta do médico.
“Olha, eu não sei o que eu estou fazendo aqui”, diz ela, em voz embargada, enquanto algumas lágrimas lhe caem dos olhos e, velozes, logo percorrem toda a extensão do seu rosto redondo. Aquelas que ela não consegue enxugar com o dorso das mãos vão alcançar o chão.
“Eu tô bem, o problema é só que eu não consigo parar de chorar, e também não consigo dormir, eu acordo de madrugada e não consigo mais pegar no sono… mas não pode ser depressão, porque eu não fico querendo me matar, isso não tem nada a ver comigo”.
A essa altura, o médico já sabe qual é o diagnóstico da sua doença, e deve ter entendido que essa foi a parte fácil da coisa. O mais complicado seria fazer Jéssica entender a sua doença.
“Eu sou uma pessoa alegre, pra cima, gosto de trabalhar, não fico querendo me matar”. As lentes dos seus óculos já estão embaçadas, tal o seu pranto.
Ela explica que, desde o começo do ano passado, vem se sentindo um pouco diferente, no começo, havia essa indisposição, esse cansaço; e impacientava-se com certa facilidade, e, assim como 9 entre 10 pessoas que sofrem de depressão, atribuiu esse desconforto ao estresse do trabalho.
Jéssica sabia, no entanto, que, pensando bem, nesses anos em que vem trabalhando como fotógrafa profissional, já passara por muitos perrengues. Não conseguia ver onde o estresse atual seria maior que os do passado.
Mas só teve certeza de que não era nada a ver com o estresse quando tirou férias e viajou. Ao invés de desfrutar de uns dias relaxantes, passava a manhã inteira na cama, estava cada vez mais tensa e era-lhe muito difícil evitar romper-se em lágrimas.
“Fui procurar o meu ginecologista, pensei que fosse alguma coisa a ver com os hormônios ou com falta de vitamina”. Jéssica mantinha a esperança de que não se tratasse de nada que um bom aporte daquelas vitaminas que proliferam nas prateleiras das farmácias não pudessem resolver.
“Quando ele me disse que eu tava com depressão, foi como se tirasse o meu chão”. Para Jéssica, é como se ouvir que o nome do seu problema era depressão fosse pior do que padecer dos sintomas da doença.
“Eu não acho que seja isso… quando eu falei pro pessoal da revista que o médico tinha dito que era depressão, ninguém acreditou, disseram ‘mas como pode ser?’, elas me conhecem, sabem como eu sou, sabem que não tenho nada de depressiva em mim”. Jéssica já consumia mais da metade dos lenços da caixinha que fica ao lado da sua poltrona.
“Eu só vim aqui mesmo porque o meu gineco insistiu”.
O que Jéssica não sabia era que, para se ter depressão, basta existir. Que o jeito de ser, que as predisposições de caráter, que ser uma pessoa gregária, não tornam ninguém imune a essa doença. No fundo, ela o sabia. “Mas eu me lembrei também do caso daquele ator, o Robin Williams, e aquele que fazia o Hermes e Renato, eles eram tão engraçados, mas tinham depressão e se mataram”. Jéssica está com os olhos inchados, mas, ao menos, o choro cessou.
A depressão não significa que a pessoa queira morrer, Jéssica ouviu do médico. Ouviu também que o que caracteriza a depressão é o humor triste praticamente diário, e a perda de vontade de fazer as coisas que costumavam ser agradáveis. Que a tristeza da depressão, muitas vezes, não tem causa alguma, não tem razão de ser. Mas é. E que a depressão pode ser qualificada como leve, moderada ou grave, portanto, ela não deve pensar que todo depressivo quer se matar, mas que podem ocorrer ideias de sumir, de desaparecer, de dormir e não acordar mais, o que fez com que Jéssica se identificasse um pouco mais com aquilo que o médico dizia.
“Ok, então, esse remédio é pra tomar todos os dias, e, à medida que o tempo passa, eu vou sentido a melhora. E a melhora vai ser em tudo, na insônia, no choro, no desânimo. Entendi bem?” Sim, ela havia entendido bem. E, em meio à depressão, pôde esboçar um sorriso ao saber que o objetivo do tratamento era a melhora completa dos sintomas, e que, dentro de alguns meses, poderia ficar sem a medicação.
Jéssica teve essa conversa com o médico um mês atrás. Ontem, ele voltaram a se falar. Ela disse, sorrindo, que o carnaval deste ano vai ser muito melhor do que foi o do ano passado.
(Visited 306 times, 2 visits today)

16 Comments

  1. Paulo Silveira 14 de fevereiro de 2015 at 21:41

    parabéns Deyvis pelo texto! espero que menos pessoas se amargurem, chorem e percam a vontade de fazer o que gostam. com a sua ajuda e de outras pessoas

    1. Dr. Deyvis Rocha 14 de fevereiro de 2015 at 22:38

      Esse é o objetivo, caro Paulo.

      Saudações,
      Deyvis

  2. Valeria F A Pereira 15 de fevereiro de 2015 at 12:14

    Caro Deyvis,

    Inicialmente, gostaria de parabenizá-lo pela iniciativa de expor situações cotidianas para tantas pessoas que atualmente, com toda a comunicação que temos, ainda encontram tantas dificuldades para se encontrar com um profissional de saúde que com responsabilidade e conhecimento diagnostique e trate esse quadro tão incapacitante. Muitas vezes me pego a pensar sobre a responsabilidade que nós clínicos, cardiologistas,ginecologistas, urologistas temos como primeira porta de entrada para grande parte desses pacientes que muitas vezes nos procuram com as mesmas lágrimas nos olhos associados com dor no peito e palpitações. Muito me entristece quando me contam que um colega lhes disse que os exames cardiológicos que ele pediu estavam todos normais. O paciente nada tinha. Como a dor, as palpitações e as lágrimas persistiram, o paciente decide procurar outro profissional. A responsabilidade é muita alta já que pelos dados estatísticos a quinta causa de morbimortalidade cardíaca são os sintomas do humor. Precisamos conscientizar mais a nossa classe profissional. Voltarmos a ver o paciente como um todo e não apenas como sistemas funcionais individualizados com profissionais preparados para cada um deles…..Continue com esse trabalho.

    1. Dr. Deyvis Rocha 15 de fevereiro de 2015 at 23:09

      Querida Valeria,

      Os brasileiros precisamos é de mais médicos como você, que não enxergam o paciente como um amontoado de órgãos, mas como um ser humano que está se entregando, de corpo e de alma, aos seus cuidados. E nessa entrega há doses variadas de ansiedade e de angústia, que não podem ser menosprezadas pelo médico.

      Obrigado pelas palavras de incentivo.
      Abraços fraternos.

  3. amanda 16 de fevereiro de 2015 at 22:35

    Parabéns pelo texto Dr.Deyvis me identifiquei muito com a história de Jéssica,pois já passei por todos esses sintomas e mais um pouco,e sei o quanto é importante ver que por mais inexplicável que isso pareça,há uma explicação para esse quadro clínico e que mais pessoas passaram ou passam por isso também,muito bom ler seu texto!

    1. Dr. Deyvis Rocha 17 de fevereiro de 2015 at 09:14

      Obrigado, Amanda.

  4. Léla saadi 19 de fevereiro de 2015 at 23:16

    Parabéns por essa explanação tão clara que ira auxiliar muitas pessoas;;;;;;;;;;;

    1. Dr. Deyvis Rocha 20 de fevereiro de 2015 at 23:50

      Grato, Léia.

  5. Joel 19 de março de 2015 at 18:54

    Sofro de depressao desde meus 14/15 anos, estou com 37 e lendo esse texto descobri essa realidade. Tenho os mesmos sintomas sendo que mais agudo… Vou ao médico… Muitissimo grato pelo texto! Meu pior sintoma é isolamento. Pensava que estava ficando maluco afinal meus paradigmas gritavam aos meus ouvidos que psiquiatra era pra doido…
    Grande AbraçO!

    1. Dr. Deyvis Rocha 22 de março de 2015 at 22:24

      Olá, Joel,

      Que bom que o texto te ajudou.

      Boa sorte, espero que fique bem.

  6. gisele 29 de março de 2015 at 17:09

    Parabens pelo seu trabalho, necessitamos de mais profissionais assim como voce. gostaria de consultar com voce pena que moro longe; muito obrigado pelo esclarecimento. Acho que tudo começou depois de uma quebra de confiança da parte do meu esposo. Ha uns seis meses atraz, passei muito mal meu peito doía, os batimentos do meu coraçao acelerava, eu tinha tremores por todo corpo, tinha momentos que eu sentia meu braço esquerdo adormecendo como se estivesse tendo um derrame; tinha medo de tudo, chorava muito, pensei que iria morrer, mudo de humor constantemente, procurei medicos fiz uma bateria de exame, de coraçao, da tireoide, ginecologico enfim nao constatou nada. Ando fugindo que possa ser depressão, mas estou percebendo que eles estão voltando, de repente me da uma tristeza, uma falta de paciência, ando procurando os motivos para tal, pensando que pode ser meu casamento, sinto que tudo isso atrapalha meu relacionamento com meu esposo que não sabe o que tenho, porque mudo tão de repente, mas aqui me ajudou muito tenho que procurar ajuda; sozinha nao consigo. Eu sei que não estou normal.

    1. Dr. Deyvis Rocha 5 de abril de 2015 at 22:03

      Olá, Gisele,

      A tristeza é um sentimento normal, a depressão, não. A tristeza a gente sente por algum motivo. A depressão não precisa de motivo para aparecer.
      Fico feliz que tenha se decidido a procurar ajuda.

      Felicidades.

  7. Aline 10 de abril de 2015 at 13:19

    Que lindo texto! Tô completamente emocionada! Tive uma vontade enorme de abraçar Jessica e o psiquiatra também. 🙂
    Não sofro de depressão mas estou com síndrome do pânico e tenho aprendido a viver de uma maneira mais leve. 🙂

    1. Dr. Deyvis Rocha 24 de abril de 2015 at 20:47

      Obrigado, Aline. Boa sorte com o seu tratamento.

  8. Pam Varela 24 de abril de 2015 at 19:54

    Ótimo texto! Explica muito bem as dúvidas, medos e deixa claro a confusão que causa a uma pessoa, quando diagnosticada friamente, sem tais explicações e preparo para o conhecimento do assunto. Tanto que ela já chega ao seu consultório em negação. Mas você percebe e reverte a situação com paciência e dedicação.
    Parabéns pelo belo trabalho e carinho por seus pacientes. Com sua explicação, e esse belo texto, tenho certeza que ajudou muito a paciente e também quem tenha dúvidas e venha a ler esse relato.

    Parabéns novamente e obrigada por compartilhar essa experiência.

  9. Luana 24 de abril de 2015 at 20:46

    Olha, parece um pouco comigo… Gostaria de compartilhar meu momento com você, mas é uma longa história…