A psiquiatria e o hábito alimentar

O Natal e as festas de Fim de Ano passaram e para muitas pessoas isso é um alívio, já que esse período do ano é propício aos excessos etílicos e, principalmente, alimentares, está aí a balança que não nos deixa mentir.  Nada mais apropriado, então, que o primeiro post do ano seja a respeito da relação entre o que comemos e os transtornos mentais.

O hábito alimentar pode estar alterado em vários transtornos. Um dos sintomas mais frequentes na depressão é a falta de apetite, acompanhada da perda de peso. Mas pode ocorrer que o apetite esteja aumentado e a pessoa ganhe peso, o que é chamado de depressão atípica.

O comer descontrolado está presente em vários transtornos e mesmo em pessoa normais, que em momentos de maior ansiedade podem “descontar” a frustração em chocolates ou outros alimentos. Se a ansiedade está em um nível que pode ser considerado uma doença, é capaz de o sinal de alerta para os pacientes procurarem o psiquiatra seja o aumento de peso fruto da comilança.

Para o dependente de álcool, a ingestão da bebida passa a ser a coisa mais importante que há e é aquilo que dirige a sua rotina. Nos casos mais graves, o dependente adquire todas as calorias que precisa através do álcool que bebe diariamente, mas é uma caloria sem qualidade, pois lhe faltam os nutrientes, as vitaminas. Por exemplo, é comum que nos casos graves de dependência a pessoa tenha deficiência das vitaminas do complexo B, o que pode levar a problemas neurológicos graves e permanentes, culminando até com a morte.

Os manuais diagnósticos de psiquiatria têm um capítulo à parte para os transtornos em que o hábito alimentar é a patologia principal.

Na anorexia nervosa, existe uma preocupação exagerada com o peso, com a possibilidade de ficar obeso, há um comportamento obstinado para a perda de peso, seja através de dietas, de exercícios físicos extenuantes. A pessoa que sofre desse transtorno tem padrões peculiares de manejo de alimentos (escondem alimentos pela casa, carregam grandes quantidades de balas em bolsas ou mochilas, cortam os pedaços de carne em partes muito pequenas e passam muito tempo rearranjando as porções no prato) e tem,sobretudo, uma alteração na imagem corporal. isso quer dizer que por mais magra que a pessoa pode estar, ela sempre vai olhar para si e se achar gorda, obesa.

Na bulimia, a pessoa tem compulsão alimentar, quer dizer, ela ingere uma quantidade maior de alimentos do que outras pessoas em uma situação e em um período de tempo semelhante fariam, com uma forte sensação de perda de controle e consequente sentimento de culpa, de auto-acusação. Para evitar o ganho de peso frente a essas situações, a pessoa costuma se engajar em atitudes para evitar o ganho de calorias e de peso, daí vindo os comportamentos purgatórios, como os vômitos provocados, a ingestão de laxantes e diuréticos e os exercícios físicos excessivos.

Hoje em dia, há prescrição indiscriminada de antidepressivos. Muitos deles não são prescritos para tratar a depressão e sim para provocar a diminuição de peso. Os antidepressivos tipo inibidores da recaptação da serotonina, como a fluoxetina e a sertralina, são medicações que provocam o aumento da disponibilidade de serotonina nos espaços entre os neurônios, o que leva à melhora da depressão, mas pode provocar o efeito colateral de perda de apetite. Daí o sentido de muitas pessoas estarem tomando a fluoxetina mesmo sem ser depressivos.

Por outro lado, o uso de antidepressivos tricíclicos, como a amitriptilina e a clomipramina, podem levar ao aumento do apetite, preferencialmente para os doces. Claro que isso vai dar em aumento do peso.

Não posso deixar de falar dos efeitos que alguns antipsicóticos podem provocar no hábito alimentar. Os antipsicóticos mais novos, como é o caso da olanzapina, tendem a provocar, como um efeito colateral indesejável, a diminuição da sensação de saciedade. Isso faz com que a pessoa que toma esse remédio coma bastante e ainda assim não sacie a sua vontade de comer. O aumento de peso que isso provoca em alguns pacientes é uma das causas frequentes de uso irregular e abandono da medicação.

 

 

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