A vivência de tempo do ansioso

 

À medida que envelhecemos temos a sensação de que o tempo corre mais rápido. Um ano para um garoto de 16 anos não é a mesma coisa para um adulto de 34 anos. Quando fui passar um ano nos EUA em um intercâmbio, eu só tinha 16 anos. Um ano me parecia uma eternidade. Hoje ainda me surpreendo tendo a exata memória do que se passou há um ano, tal como se os fatos se dessem hoje. Mas, afinal, um ano para um garoto de 16 anos representa 6% da vida de uma pessoa, e se formos contar a vida que a pessoa lembra, aí já seria 8%. Um ano para mim agora equivale a apenas 2% da minha vida, porcentagem que vai diminuindo com o passar do tempo.

O que quero dizer é que mesmo para as pessoas ditas normais ocorrem alterações na maneira como elas vivenciam o tempo.

Quem nunca teve a sensação de que um dia maravilhoso não estava passando rápido demais? Por outro lado, quem já esteve internado em um hospital por uma semana certamente se vê confuso quanto à duração da doença, que parece ter sido muito mais longa. Quando estamos na expectativa de que alguma coisa boa noa aconteça, a espera sempre nos parece demasiado longa. Quando estamos em alguma viagem, parece que o tempo rende bem mais do que quando passamos o dia todo sentado em uma cadeira trabalhando.

Algumas doenças mentais, no entanto, alteram de maneira particular essa vivência do tempo. A tirinha de jornal de Adão Iturrusgarai, publicada no caderno Iliustrada da Folha de São Paulo de 05/05/2013, representa com exatidão (e uma dose de ironia) a vivência temporal de alguém que sofre de ansiedade. O sujeito diz que vive à frente de seu tempo, que pensa sempre no futuro. Quem é ansioso patológico sabe como o tempo que tem parece transcorrer de um modo incrivelmente acelerado, como grãos de areia que escorrem entre os dedos; sente como se houvesse uma “pressão do tempo”, pois tem a nítida impressão de que não haverá tempo de fazer nada do que ela planeja fazer. Durante uma de suas crises de ansiedade, um jovem citado por Jaspers dizia: Está recomeçando, mamãe. Que é isto, hein? Tudo parece vir mais rapidamente agora. Eu falo mais depressa. Tu falas mais depressa também. Parece que as pessoas caminham mais depressa pela rua.”

Na verdade, o futuro, para quem sofre de ansiedade, é sempre algo opressivo, por vezes paralisante. Tal qual no cartum acima, a pessoa vive pensando naquilo que está por vir. O problema é que esse futuro é algo que nunca chega, tal qual Godot, e por isso nunca vai ser aliviado.

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1 Comment

  1. Ma 25 de novembro de 2016 at 05:22

    Esperando Godot como quem espera com desejo, com ardor, ódio e fé – a esperança. Nossa vida é uma eterna esperança, até quando estamos mais lúcidos e sabemos que esse futuro não virá.
    2016 acabou pra mim e a sensação é de que, mais uma vez, não fiz nada.
    Às vezes eu paro, medito, busco soluções, na terapia, no lazer, no amor, na arte… e me pergunto: por quê?
    Não por que comigo, mas por quê com o corpo, com o espírito?
    A ansiedade parece outro ser que habita por baixo da epiderme.

    ps: gostei muito do seu blog. Fiquei feliz de encontrá-lo numa alvorada de insônia.
    Adorei as referências literárias e espero trocarmos figurinhas. Seria ótimo dialogar com um psiquiatra como interlocutor mesmo – além consultório, não somente como paciente.