Amor à Vida, mas nem tanto à realidade

Chamou a atenção de vários colegas meus, que inclusive fizeram questão de manifestar a sua opinião, em geral depreciativa, nas redes sociais, a forma como a psiquiatria e internação psiquiátrica foi abordada nos últimos capítulos da novela Amor à Vida, da Rede Globo. A mocinha da trama, Paloma, vivida por Paolla Oliveira, é internada em uma clínica psiquiátrica, por recomendação de um juiz, seguindo ao episódio em que fora presa por carregar drogas consigo em sua viagem de regresso ao Brasil.
A inspiração do autor da trama parece ter sido o filme “A Troca”, com Angelina Jolie, em que ela é internada em um hospital psiquiátrico nos anos 30, após ter o filho raptado e afirmar que a criança que a polícia lhe havia entregue, fruto de investigação, não era o seu filho. Foi assim submetida ao mesmo tipo de maus-tratos da heroína Paloma, enquanto a enfermeira da clínica tem ares de Mildred Ratched, a personagem de Louise Fletcher no clássico filme “Um Estranho no Ninho”, estrelado por Jack Nicholson.
No caso da telenovela em questão, é preciso que se ressalte firmemente aquela frase que costumava vir ao final dos créditos dos folhetins, “esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, fatos ou situações terá sido mera coincidência”.

É claro que o compromisso da novela é entreter, divertir, apelar ao coração, e é a isso que se presta a história da internação psiquiátrica de Paloma. A realidade é alterada em função da dramaturgia e, como já se disse mais ou menos assim em um filme, entre a verdade e a lenda, publique-se a lenda. Assim, para obter o efeito desejado, é natural que à trama se permitam certas licenças dramáticas.
Entretanto, não se pode negar a responsabilidade da novela das 9 como fonte de informação. A hora da novela é o momento em que mais pessoas se reúnem ao redor do aparelho de TV, que é o principal meio de comunicação do nosso país. Assim, a maneira como determinada mensagem é transmitida pesa e muito sobre milhões de pessoas, não só no aspectos estético, nas novas modas que logo se veem desfiladas nas ruas ou nas frases que se associam a determinado personagem ganhando a boca do povo, mas também na moldagem da opinião do público. Hoje em dia, por pior que seja o vilão da novela, ele não é fumante. Será que isso tem mais a ver com a vida real ou com a influência que tal conduta pode ter nos telespectadores, que tenderiam a imitar os astros da novela?
Com a internação psiquiátrica não se está tratando de um tema de aceitação generalizada e sem nenhuma margem à fantasia e à especulação por parte do cidadão comum. De fato, a internação psiquiátrica e o que acontece com a pessoa internada gera angústia e pesadelos nas pessoas e nos familiares que são afetados por uma doença mental. Às vezes, uma pessoa teme mais a possibilidade de ser internada do que as vozes que a atormentam, e não é incomum que se deixe de procurar a ajuda psiquiátrica necessária devido ao medo irreal de uma internação.

A pessoa com esquizofrenia só é internada se os seus sintomas estão numa intensidade tal que compromete a sua segurança e a das pessoas ao redor, como, por exemplo, em situações agressividade ou de intenção suicida. Pode ser também que a internação se dê por ordem de um juiz, o que parece ser o caso de Paloma. Mas o que vem a seguir é pura asneira Não costumo falar da conduta clínica de colegas, mas, cá entre nós, que psiquiatra ruinzinha essa da clínica da novela, hein? Que anamnese tendenciosa e mal-feita ela conduziu em Paloma! Tudo bem que muitos vezes se tenha dúvidas diagnósticas quando se depara com um determinado quadro clínico, mas como é que ela pode fazer o diagnóstico de surto psicótico baseada no fato de que, como ela mesma diz aos familiares de Paloma que foram visitá-la na clínica, “ela gritou, teve acessos de raiva, ela teve que ser contida pelos enfermeiros”? E em que livro-texto ou manual de tratamento está posto que o primeiro tratamento para um surto é a eletroconvulsoterapia, o famoso eletrochoque, que é a conduta da médica após o primeiro contato com Paloma? E depois ainda deixam a mocinha sofredora trancafiada no quarto. Esses são só apenas alguns absurdos, há vários outros. Muita gente que assistiu a esses capítulos fixou uma imagem muito negativa (ou apenas reforçou a opinião negativa que já tinha antes) da psiquiatria e dos tratamentos para a esquizofrenia. Alguém aí falou em aumento do preconceito?
É claro que a encenação de um teatro de horrores psiquiátrico no horário nobre não brotou espontaneamente da mente do autor da novela. Já vimos que ele não é original ao retratar os atos despiciendos da psiquiatria, e se é assim há uma razão de ser. No passado, e talvez ainda em algum lugar do presente, já se causou muito mal às pessoas internadas, abandonadas pelas famílias e pelo Estado. Mas é uma pena constatar que, na atualidade, a representação dramática do tratamento psiquiátrico guarde semelhanças com métodos de tortura medievais.

Sugiro agora que após Paloma sair da clínica, não se esquecendo dos sofrimentos pelos quais passou, ela faça uma denúncia ao Conselho Regional de Medicina contra a psiquiatra e ao Ministério Público sobre os maus-tratos sofridos na clínica para que uma perca a licença de exercer a medicina e outra tenha as suas portas definitivamente fechadas. E conviria também que, em um gesto de consideração e estima pelas pessoas que realmente sofrem com esquizofrenia e outras doenças mentais, ela interpelasse junto ao seu pai, dono do hospital San Magno, para que se estabelecesse uma ala psiquiátrica no dito hospital, onde se promoveria a internação, por um breve período, das pessoas que estão em crise, onde fossem submetidas a tratamento digno e respeitoso, como merecem todas as pessoas internadas por quaisquer tipos de problemas.
Seria uma forma da novela da Globo chegar mais próximo à realidade e significaria que tem não se eximiria da responsabilidade que tem com grande parte da população brasileira.

Quem quiser uma boa dose de realidade sobre o que são as doenças mentais graves como a esquizofrenia e o transtorno bipolar, mais vale a pena assistir ao programa “A Liga“, da TV Bandeirantes, do dia 10 de setembro, que tratou do tema com muita delicadeza e honestidade. Vocês podem vê-lo clicando aqui.

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