Artigo no Jornal da Tarde sobre esquizofrenia

Hoje, 25/10/2012, saiu no Jornal da Tarde, de São Paulo, um artigo que escrevi intitulado “Esquizofrenia sem preconceito”.  Ele pode ser encontrado na página 2A da publicação ou então aqui mesmo.

Segue o texto completo do artigo:

Esquizofrenia sem preconceito

Dias atrás, um jovem com o diagnóstico de esquizofrenia atirou em pessoas que foram à sua casa para cumprir uma ordem de interdição. O caso trouxe à baila a questão da violência potencial dos portadores de esquizofrenia.

Há uma ideia compartilhada por boa parte da população de que todo esquizofrênico é violento. Lembro de vários colegas que nos anos de formação do curso de medicina, durante o estágio em psiquiatria, se recusavam a entrar nas alas de internação com medo de que fossem atacados pelos pacientes. Muitos profissionais de outras áreas da medicina não se sentem tranquilos para atender um paciente que tenha esquizofrenia e que os procure para algum problema médico geral. Há justificativa para tal receio?

Na esquizofrenia, há uma alteração cerebral que provoca uma distorção da realidade, através de delírios e alucinações, comumente chamados de sintomas psicóticos. Delírios são ideias falsas e irremovíveis que não podem ser atribuídas ao contexto sócio-cultural e educacional em que a pessoa está inserida, são mantidos com uma convicção extraordinária e não podem ser modificados pela lógica. O tipo de delírio mais comum na esquizofrenia é o de perseguição. O indivíduo crê que está sendo perseguido por outras pessoas e que a sua vida é ameaçada. Nas alucinações as percepções estão alteradas, o que faz com que a pessoa ouça ou veja coisas, sinta gostos e cheiros que não existem. A principal forma de alucinação é a auditiva: a pessoa escuta vozes que conversam entre si, que a depreciam, que a xingam, que a ameaçam de morte. Quem está alucinando não tem noção de que as vozes são “coisas da cabeça”.  

Claro que se alguém pensa que está com a vida em risco, acha que está sendo perseguido e ouve vozes que confirmam essas ideias, é natural que fique ansioso e passe a agir em função dessas crenças, buscando proteção. No entanto, estudos mostram que, mesmo com essas alterações de comportamento provocados pelso sintomas psicóticos, as pessoas com esquizofrenia não estão mais propensas a cometer atos de violência do que as pessoas normais. O caso da Aclimação foi uma exceção. Ou será que pensam que todos os dias eu ponho o meu colete à prova de balas para atender os meus pacientes com esquizofrenia?

O tratamento dessa doença é feito com medicações e o seu uso adequado elimina, na maior parte dos casos, os delírios e as alucinações ou, se não os elimina totalmente, reduz bastante a sua intensidade, o que já evita as alterações de comportamento.

Não é preciso temer uma pessoa que tem esquizofrenia. Maior do que o sofrimento causado pelos sintomas psicóticos é o preconceito que a sociedade lhes dirige. 

 

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