Câncer e Depressão

A depressão é a principal causa de incapacidade entre todas as doenças (e não somente entre as doenças mentais). Muito frequentemente, ela vem acompanhada de algum transtorno ansioso, o que tende a complicar a recuperação da pessoa, a deixar os sintomas mais graves e com menos resposta ao tratamento. Quando está associada a alguma doença física, a depressão costuma aumentar a sobrecarga de sintomas e o prejuízo funcional, além de piorar o desfecho clínico.
Pessoas com câncer, seja de que tipo for, têm mais risco de desenvolver depressão do que o restante da população. Quando câncer e depressão afligem a mesma pessoa, ela terá mais sintomas de ansiedade, sentirá mais dor e fadiga, e terá pior desempenho nas suas funções do que as pessoas que tem somente câncer. Além disso, quem tem essas duas doenças tende a ter mais pensamentos de morte e a aderir menos ao tratamento para o câncer.
Nesse momento é importante fazer uma ressalva. Ouvir a confirmação de um diagnóstico de câncer abala as estruturas emocionais de qualquer pessoa. O câncer e a morte, afinal, estão muito associados no nosso ideário. Abatimento, desalento, desmoralização, desesperança, tristeza e mais tantos outros sentimentos negativos se misturam na mente de quem tem câncer. Não se pode confundir esses sentimentos, normais diante da situação de vida que se impõe, com o diagnóstico de depressão. A característica central da depressão é a perda da capacidade de sentir prazer nas coisas ou nas situações antes apreciadas. Por pior que possa se sentir alguém com câncer, por mais desmoralizado que esteja, se não tem depressão, ele mantém a capacidade de apreciar e de desfrutar o momento presente, ainda que o futuro seja visto com pessimismo. É claro que um tratamento especializado é necessário tanto para a depressão que coexiste com o câncer como para esse pessimismo e essa desmoralização que o câncer traz a muitas pessoas. Aliás, não é incomum que se ouça por aí que é “normal” que uma pessoa com câncer tenha depressão, e que por isso, não é preciso que haja um tratamento psiquiátrico.
Não sei se tal raciocínio está por trás do baixo índice de pacientes com câncer e depressão que fazem tratamento psiquiátrico, como mostra um estudo publicado recentemente.
Pesquisadores britânicos realizaram entrevistas estruturadas em pacientes que compareciam a clínicas públicas especializados no tratamento contra o câncer no intuito de identificar a prevalência de depressão entre os enfermos com tipos comuns de câncer: mama, pulmão, colorretal, genitourinário e ginecológico, e a proporção de pacientes com depressão que estavam recebendo tratamento adequado.
De um total de 21.151 pacientes avaliados, confirmou-se o diagnóstico de depressão em 1538. A proporção de depressão foi maior em pacientes com câncer de pulmão, 13,1% dos casos, seguidos pelos pacientes com câncer ginecológico, 10,9%, câncer de mama, 9,3%, colorretal, 7%, e genitourinário,5,6%. A depressão foi mais comumente detectada em pacientes jovens do que nos mais velhos, nas mulheres (contando os cânceres que ocorrem em ambos os sexos) e foi mais comum entre aqueles com maior privação social. O diagnóstico de depressão não esteve associado ao tipo de tratamento para o combate ao câncer, se curativo ou paliativo, nem ao tempo transcorrido desde que se descobriu câncer.
Mas o dado mais alarmante mesmo foi o de que a maior parte dos paciente com depressão (1.130 de um total de 1.538 pacientes = 73%) não fazia o acompanhamento clínico adequado, isto é, não estava tomando nenhuma medicação, nem consultando um terapeuta.
É certo que mesmo na população geral, há uma defasagem entre os pacientes que têm depressão e aqueles que são adequadamente tratados, porém, concernente ao portador de câncer, sabendo-se que a depressão contribui para piora da sua qualidade de vida e para piorar a adesão à radio e à quimioterapia, a falta do tratamento contra a depressão pode mesmo representar a diferença entre o êxito e o fracasso terapêutico.
Ja está incutido em toda a gente que a capacidade de manter a esperança, o otimismo e o bom astral frente ao câncer é uma atitude que pode melhorar a resposta do nosso organismo às terapias. Pois bem, agora vimos como, para muitos portadores de câncer, esses atributos de otimismo e bom astral só vão ser alcançados com o devido acompanhamento de um psiquiatra.
Finalizando, é importante deixar claro que todo o paciente com câncer deve ser avaliado para a possibilidade de depressão.

Referência

Walker J, Hansen CH, Martin P, Symeonides S, Ramessur R, Murray G, Sharpe M. Prevalence, associations, and adequacy of treatment of major depression in patients with cancer: a cross-sectional analysis of routinely collected clinical data. The Lancet Psychiatry, Early Online Publication, 28 August 2014doi:10.1016/S2215-0366(14)70313-X

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