Chico Buarque, 70

Hoje, Chico Buarque completa 70 anos. Todas as homenagens são justas para o homem que pela qualidade, versatilidade e longevidade da obra, encontra poucos paralelos na história cultural do nosso país, tal qual um Michelangelo tupiniquim.
A obra musical de Chico Buarque faz parte da trilha sonora afetiva de vários brasileiros, pois ele é desses artistas que conseguem chegar a tais recônditos da mente humana, daqueles que conseguem descrever os afetos e sensações que sempre tivemos dentro da gente mas não sabíamos o que queriam dizer. Chico é mestre porque dá nome aos sentimentos. Mais do que nunca, vale repetir a assertiva de Freud, que ao aniversariante lhe cai muito bem: “(poetas e romancistas) conhecem muitas coisas entre o céu e a terra com que a nossa sabedoria escolar não poderia ainda sonhar (…) conhecem a psique porque se abeberaram em fontes que nós, homens comuns, ainda não tornamos acessíveis à ciência”.
E para quem quer aprender psiquiatria ou psicologia, a obra de Chico Buarque é um prato cheio.
Várias são as passagens de sua obra que contêm descrições de quadros psiquiátricos. Cito alguns.
Carolina é uma moça que guarda tanta dor nos seus olhos fundos, que vive a chorar, e mesmo que o cantor lhe convide para dançar, que lhe mostre como a vida deve ser aproveitada e como é belo o nascer de uma flor ou uma estrela cadente, ela não se anima, não sai para o mundo que passa à sua janela. Não adiante nem que ele lhe cante mil versos de amor. Eis que o cantor desiste e se vai. Mas talvez o problema não esteja com o cantor e sim com a própria Carolina, que mostra sinais de depressão: ela tem os olhos tristes e fundos de tanto chorar e isso não cede mesmo com o passar do tempo, pois eis que as rosas nascem na primavera e morrem no inverno, como nos diz a música, e Carolina continua do mesmo jeito (o tempo passou na janela e só Carolina não viu). Se fosse somente uma tristeza comum, fruto, por exemplo, do fim de um relacionamento amoroso, o tempo ou as alegrias da vida que o cantor tenta lhe mostrar poderiam surtir efeito na mudança do seu humor.
Por outro lado, encontramos o polo oposto da depressão, isto é, a euforia, em duas de suas canções, “Ela desatinou” e “Dura na queda”, que talvez falem da mesma mulher, pois em ambos os casos, enquanto todos estão guardando as suas fantasias de carnaval e desmanchando as bandeiras e estandartes na quarta-feira de cinzas, ela continua, a despeito de tudo, sambando, mostrando como o seu humor está exaltado e o seu nível de energia está aumentado. Ela está tão desinibida que não se importa por ter perdido a saia e o emprego e por estar se mostrando a todos a sambar em pleno chafariz. Chico está descrevendo um caso típico conhecido como “mania bipolar”. Pode até parecer interessante ser tão feliz, mas a verdade é que a alegria desenfreada também causa problemas, como o poeta deixa claro: “largou família, bebeu veneno e vai morrer de rir (…) custa cair em si”.
A paranoia, a desconfiaça patológica, é bem caracterizada na música “Acorda amor”. A canção foi feita à época da ditadura militar, um período em que vários Direitos Civis foram suprimidos e em que muita gente vivia o medo de ser vítima da perseguição patrocinada pelo Estado. Muitos foram torturados e outros tantos mortos por aqueles que nos governavam. Enfim, havia mesmo um clima de paranoia no ar naqueles tempos, que se reflete na canção: logo no começo da música ouve-se uma sirene de polícia, e a pessoa se mostra assustada por ter tido um pesadelo de que “tinha gente lá fora batendo no portão” perseguindo-o, só para descobrir logo depois que “não era pesadelo nada”, pois havia gente de verdade em sua casa.
Em seu último livro, Leite Derramado, o protagonista é um velho homem que está num leito de hospital, talvez experimentando os seus últimos momentos na terra e apresentando sinais de desorientação no tempo de no espaço. As lembranças do velho já não são confiáveis, e à medida em que rememora em ritmo alucinante a sua própria história e a da sua família, vê-se que muitas vezes não é capaz de distinguir entre um fato passado e um momento vivido no presente, confunde os nomes e as pessoas. Em determinado momento, quando uma enfermeira está no seu quarto para conferir os seus sinais vitais, ele a toma por uma secretária a quem dita uma carta: “E já que está com papel e caneta na mão, não custa nada a senhora fazer uma minuta (…) Quando a senhora me acordou, por coincidência eu acabava de acordar no casarão de Botafogo”. A esse tipo de quadro clínico, em que concorrem desorientação temporal e espacial, prejuízo da memória e alucinações, e cujas principais causas são distúrbios metabólicos, infecções ou demência, todos levando a um desarranjo cerebral, sendo mais frequente em idosos, dá-se o nome de Delirium”.
Eu poderia citar várias obras de Chico que conversam de maneira mais ou menos explícita sobre as questões mentais, mas em prol de não estender este post e poder publicá-lo ainda nas comemorações dos 70 anos do meu ídolo, ficamos por aqui.
Parabéns, Chico!

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