Comentários sobre a coluna de Hélio Schwartsman

O articulista da página A2 da Folha, Hélio Schwartsman (para assinantes), escreve na Folha de hoje, 17/12/2011, no coluna intitulada “Ouvindo Vozes”, que a necessidade de se garantir as salvaguardas jurídicas para a população que vai ser internada involuntariamente – o que está correto – deve ocorrer porque não é prudente deixar nas mãos dos psiquiatras a definição sobre quem deve ou não deve ser submetido ao tratamento – o que também é correto, mas as justificativas dadas pelo articulista merecem uma ressalva.

Basicamente, o jornalista justificou a sua opinião com base em um experimento que tomou lugar nos EUA, em 1973, em que pessoas sãs chegavam às portas dos hospitais psiquiátricos e diziam ouvir vozes, de forma que essas pessoas eram internadas e lá ficavam por muitos dias, mesmo que após a sua internação passassem a negar que estavam ouvindo vozes. O objetivo do trabalho era mostrar as falhar nos diagnósticos em psiquiatria nos EUA.

Ao citar um experimento conduzido em 1973, Schwartsman não levou em consideração que o passar dos anos foi benéfico para a nossa especialidade e que, se ainda carecemos dos avanços tecnológicos de outras áreas da medicina, os nossos critérios diagnósticos estão muito mais bem definidos e universalizados. Parâmetros dos anos 70 fazem parte da nossa História, apenas isso.
Em relação ao local do estudo, a influência das ideias psicanalíticas na prática psiquiátrica e no diagnóstico das doenças mentais foi muito importante nos Estados Unidos, o que não ocorreu do outro lado do Atlântico, como na Inglaterra, onde o diagnóstico de esquizofrenia era pautado pelos critérios de Kurt Schneider. Dessa forma, a visão psicanalítica englobava sobre a definição de esquizofrenia uma diversidade de comportamentos alterados, que ia muito além do que hoje se define como esquizofrenia. Bastava mesmo que alguém declarasse ouvir vozes para ser considerado passível de tratamento e, por que não?, de internação. Mas artigos dos anos 70, conduzidos pelo grupo de Robert Kendell, mostraram que havia sim diferenças marcantes entre o diagnóstico de esquizofrenia nos EUA, muito mais abrangente, e no Reino Unido, mais restritivo, o que inviabilizava vários aspectos da pesquisa.
Foi da necessidade de garantir a confiabilidade (que é quando diferentes avaliadores em diferentes momentos e lugares estabelecem o mesmo diagnóstico) entre os diversos centros de psiquiatria ao redor do mundo que se culminou com o desenvolvimento do DMS III, em 1980, a partir do qual as pesquisas ganharam mais impulso, o que nos ajudou a melhorar o entendimento dos transtornos e o seu tratamento.
Voltando a falar sobre a internação compulsória de dependentes de crack, não acho que isso seja mis do que  tratar um sintoma e não a doença como um todo. É claro que se a humanidade chegou ao fundo do poço com o surgimento da cracolândia, não foi somente por uma questão de problemas psiquiátricos acometendo centenas de pessoas. A cracolândia é um problema de nossa sociedade, de nosso país injusto, da corrupção, enfim, é a rota final onde vão dar todas as mazelas do país.
Sobre a diferença entre os diagnóstico de esquizofrenia no Reino Unido e nos Estados Unidos, recomendo os artigos:
1. Kendell R. Psychiatric diagnosis in Britain and The United States. Br J Psychiatry. 1975;9:453-61
2. Kendell et al. Diagnostic criteria of American and British psychiatrists. Arch Gen Psychiatry. 1971;25:123-30
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