Da Neurose de Guerra ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático

Neste 6 de junho de 2014 relembramos os 70 anos do Dia D, a invasão das Forças Aliadas na região da Normandia, França, então território nazista. Foi o primeiro passo para a libertação de Paris e um sério revés para as tropas de Hitler, que viram nesse dia o começo do fim da II Guerra Mundial na Europa, culminando com rendição incondicional da Alemanha menos de um ano depois dos eventos transcorridos nas praias francesas.

A efeméride nos dá a ocasião de falar sobre um transtorno mental cujas primeiras descrições estavam associadas aos campos de batalha. Não é a toa que o conjunto de sintomas que agrupamos hoje sob o nome de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) tenha sido anteriormente conhecido por “Coração de Soldado” ou “Neurose de Guerra”.

Há muito se conhece o efeito dos traumas de guerra na mente e na disposição do combatente. A visão de camaradas mutilados ou mortos e a proximidade com a própria morte pode causar um medo tão grande que é capaz de alterar o funcionamento psicológico de maneira crônica. Já se advertia no Deuteronômio 20, 1-9:  “Quando saíres para guerrear contra teus inimigos e vires cavalos, carros e exército mais numeroso que o teu… E os oficiais dirão ainda ao povo: ‘Há algum medroso e sem coragem? Pois que se retire e volte para casa, para que sua covardia não contagie seus irmãos’”.

Os primeiros estudos médicos sobre as consequências do trauma de guerra datam da Guerra Civil Americana, quando o médico americano DaCosta, dando ênfase aos sintomas autonômicos cardíacos, descreveu o “Coração Irritável” do soldado.

Na I Grande Guerra, chamou a atenção dos líderes militares o grande volume de baixa de recrutas por razões psiquiátricas. Incapazes de prosseguir na luta, os soldados acometidos relatavam sintomas os mais variados: palpitações, falta de ar, fadiga, sudorese excessiva, tontura, dificuldades de concentração, esquecimentos, sono perturbado, desmaios. Especulava-se se tais sintomas poderiam ser fruto de sequelas de explosões de granadas que causassem pequenas concussões cerebrais (“choque de granada”), ou se a origem de tal distúrbio era puramente psicológica (daí o nome “neurose de guerra). Houve quem especulasse se tudo não passaria de subterfúgio de soldados que não queriam voltar ao campo de batalha e preferissem recorrer a uma pensão governamental por invalidez.

No entanto, quadros psiquiátricos similares foram descritos ao longo das guerras disputadas no sangrento Século XX. O grande número de veteranos da Guerra do Vietnã que requisitaram algum tipo de ajuda psicológica em razão da exposição ao combate, mesmo após vários anos do seu retorno para casa, e a grande incidência de abuso de substância entre o ex-combatentes levou os psiquiatras e pesquisadores americanos a valorizarem os efeitos crônicos do trauma e a estabelecerem o TEPT como uma categoria diagnóstica distinta, em 1980.

Hoje, o diagnóstico de TEPT não está mais estritamente relacionado à guerra. Bom, talvez não às guerras tradicionais, entre Estados e Nações. Os índices de violência alarmantes do nosso país nos fazem sentir muitas vezes numa guerra urbana, onde se teme ser alvejado, roubado, violentado, ao andar pela cidade. Mas além dos traumas relacionados à violência provocada pelo homem, há de se destacar as catástrofes naturais, como inundações, terremotos, os acidentes automobilísticos e aéreos, ou mesmo o fato de se estar presente à morte de um ente querido, e tantas outras situações, como formas de traumas que podem alterar profundamente a psiquê.

Uma das características clínicas principais desse transtorno são as lembranças involuntárias e intrusivas dos eventos traumáticos, isto é, a pessoa, mesmo sem querer, é invadida pela memória da situação ou evento que gerou o trauma, muitas vezes a sensação é de se estar revivendo tudo o que passou. Mesmo quando dorme,  pessoa não se livra do trauma, pois são frequentes os sonhos com a situação estressante. A pessoa tende a evitar entrar em contato com tudo aquilo que possa fazê-la lembrar-se do evento traumático (lugares, pessoas), e por isso fica num estado de alerta constante. O desgaste psíquico que isso ocasiona leva a pessoa a manter muitos pensamentos negativos a respeito de si e a respeito do mundo, ao seu distanciamento dos entes queridos e à incapacidade de voltar a sentir emoções prazerosas. O curso da doença tende a ser crônico e quando mais se demora no tratamento, mais difícil será o retorno à rotina normal.

 Referência

Crocq MA1, Crocq L. From shell shock and war neurosis to posttraumatic stress disorder: a history of psychotraumatology. Dialogues Clin Neurosci. 2000;2(1):47-55.

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