Depois da tragédia, a ajuda psíquica a quem ficou

…A saudade é o revés do parto

A saudade é arrumar o quarto 

Do filho que já morreu

Pedaço de Mim, Chico Buarque

É sábado à noite e a filha se despede com um beijo na testa. O seu namorado acaba de lhe dar um toque no celular, sinal de que está chegando com o carro à entrada do prédio e ela deve descer para encontrá-lo. As férias estão acabando e esse é o último fim de semana livre que tem para encontrar-se com os amigos da faculdade na casa noturna mais badalada da cidade. A mãe lhe diz que tenha cuidado e lembra à filha de que esteja pronta para ir ao almoço na casa da avó na tarde do domingo. Ela diz “pode deixar, mãe” e bate a porta. A mãe se prepara para dormir, talvez pensando em sua própria juventude, analisando se a sua vida atual tem um pouco a ver com os sonhos que cultivava quando tinha a idade da filha. Ela cai no sono sem ter chegado a nenhuma conclusão. O telefone de casa toca por volta das 3 da manhã. Ela desperta sobressaltada, a sua pulsação aumenta e a respiração fica ofegante. Não é à toa, pois sabe que as ligações telefônicas na madrugada quase sempre são o arauto de notícias terríveis. Nada poderia prepará-la para aquilo. Este é simplesmente o pior momento da sua vida. Sua filha morta. A boca seca. A pele se congela. As mãos tremem e já não conseguem segurar o gancho do telefone. A voz do outro lado da linha fica tão distante. Tudo ao seu redor está distante, ela parece não pertencer mais àquele ambiente, as suas ações não são mais coordenadas por uma atividade consciente. O pranto irrompe e um grito de dor ecoa pela casa. O coração se acelera ao ponto de que parece que vai rasgar as suas costelas. O ar lhe falta, as pernas não obedecem, ela cambaleia. Não é possível dizer mais nada, apenas sentir como se naquele momento estivesse morrendo ela também. Não, não é essa a hora de sua morte, ainda que ela vá se lembrar para sempre daquela sensação terrível, daquela ligação fatídica. Sua vida nunca mais será a mesma.

Este é só o começo do luto de tantas pessoas que perderam um filho, um irmão, um namorado, um amigo, consumidos pela fumaça tóxica que se alastrou pela boate Kiss em Santa Maria-RS, na madrugada do último dia 27 de janeiro. Luto que é sinônimo de sofrimento, e tanto pior é este sofrimento quanto mais jovem é o ente perdido que se foi, quanto mais inesperada é essa morte, quanto mais sem sentido ela parece. É claro que o tempo, como acontece com tudo, vai amenizar a dor, e mesmo que as coisas não sejam nunca mais como foram antes, as pessoas de Santa Maria vão voltar às suas atividades normais, as pessoas que perderam os seus familiares e amigos vão se adaptando à vida sem aquela pessoa, os sobreviventes da tragédia vão tocar a vida e realizar os seus sonhos de se formar na faculdade, de se casar, etc. Nem todos, no entanto, vão conseguir se recuperar da mesma forma. Muitos devem sofrer as sequelas dessa tragédia não só como uma lembrança terrível ou uma eterna saudade, mas como um transtorno mental. Catástrofes como essa de Santa Maria podem gerar nos sobreviventes, nos familiares envolvidos com o fato, vários transtornos mentais, como depressão, ansiedade, pânico, estresse pós-traumático. Pessoas que nunca tiveram nenhum tipo de problema psiquiátrico passam a tê-lo, assim como as pessoas que já tiveram alguma doença têm o risco de descompensar. O momento em que uma mãe recebe uma ligação telefônica no meio da noite lhe informando sobre a morte da filha pode ser a gênese de um transtorno psiquiátrico.

Não devemos psiquiatrizar a dor das pessoas nesse momento tão agudo, em que as feridas ainda sangram abundantemente. Mas é necessário acompanhar aqueles que ficaram, estar disponível para escutar-lhes e amparar-lhes. Os responsáveis pela Saúde Mental do Rio Grande do Sul e a Associação Brasileira de Psiquiatria já têm profissionais com experiência no socorro mental às vítimas de catástrofes que estão atuando junto às pessoas de Santa Maria. Esperasse que com isso se evite o desenvolvimento de doenças psiquiátricas e não haja um comprometimento maior no funcionamento dos sobreviventes e dos habitantes de Santa Maria, mas é certo que boa parte dessas pessoas vão precisar de terapia e medicações.

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