Discriminação e Saúde Mental

La Piñata - Diego Rivera, 1953Alguém aí já se sentiu discriminado em algum momento da vida, ou seja, já recebeu tratamento desigual ou injusto, por qualquer que seja o motivo? Nem que tenha sido uma vez na vida, você se lembra de já ter se sentido rejeitado, menosprezado, vilipendiado, por ter exposto um determinado ponto de vista, uma fé, por deixar transparecer na sua aparência ou no seu sotaque a sua origem? Por ser negro, índio, mulato, pobre, homossexual, nordestino? Por ter uma doença mental? Quem já passou por isso não o esquece com facilidade, aliás, muito pelo contrário, é uma experiência que se talha na memória, como sói acontecer às circunstâncias traumáticas da vida. Se já se sentiu discriminado, que sentimentos o acompanharam pelo resto desse dia, e até mesmo, dessa semana? Tristeza, sem dúvida. Sentiu vontade de chorar, nem que tenha sido de raiva? E quanto à revolta, irritação, ansiedade? Não conseguiu dormir ao menos aquela noite?
Se uma vez na vida em que tal situação se abateu sobre nós é mais do que suficiente para que entendamos muito bem as suas consequências nefastas, que tal se a discriminação não fosse uma exceção, mas uma regra em sua vida? Como suportá-la? Como seguir adiante dia após dia?
Não é difícil concluir que a saúde mental sai muito abalada quando se é alvo contínuo de discriminação.
Um estudo científico recente trouxe mais esclarecimentos sobre esse tema.
Adolescentes latinos que experimentam estresse relacionado à discriminação têm maior probabilidade de sofrer de ansiedade, depressão e problemas para dormir, de acordo com uma pesquisa pela Steinhardt School of Culture, Education and Human Development, da Universidade de Nova York. Tais resultados referentes à saúde mental eram mais pronunciados em adolescentes latinos nascidos nos EUA do que latinos nascidos no estrangeiro.
Segundo o estudo, publicado no periódico Child Development, a primeira e a segunda geração de imigrantes são afetadas de maneiras diferentes pelo estresse gerado pela discriminação.
Vale lembrar que a população latina é o principal grupo étnico minoritário nos EUA, correspondendo a um total de 15% da população. Pesquisas anteriores já mostraram que muitos jovens latinos enfrentam discriminação no seu dia a dia.
Os autores do estudo afirmam que “a discriminação está relacionada a uma variedade de sintomas em saúde mental (…)  e a adolescência pode ser um período particularmente vulnerável para a discriminação, pois a formação da identidade cultural, étnica e racial, é central nesse período da vida”.
O estudo
A pesquisa envolveu 173 adolescentes latinos de escolas da cidade de Nova York que cursavam a 10a., 11a. e 12a. séries. Inclui-se no estudo tanto os adolescentes imigrantes nascidos no estrangeiro (primeira geração) quanto os nascidos nos EUA (segunda geração).
Em cada série, o estudo media o nível de estresse que os adolescentes experimentavam em relação à discriminação, assim como 3 aspectos da sua saúde mental: ansiedade, depressão e problemas para dormir.
Em geral, a saúde mental melhorava significativamente ao longo do tempo. A ansiedade diminuía da 10a. à 12a., enquanto a depressão e os problemas para dormir diminuíam da 10a. à 11a. série, e aumentavam um pouco da 11a. à 12a. série.
O estresse relacionado à discriminação esteve fortemente associado ao aumento de sintomas de ansiedade e depressão. Embora não tenha havido diferença na quantidade de estresse relacionado à discriminação entre a primeira e a segunda geração de imigrantes, o efeito de tal discriminação foi mais deletério naqueles imigrantes nascidos nos EUA.
O achado pode trazer luzes à questão do “paradoxo do imigrante”, em que o imigrante de segunda geração se sai mais prejudicado que o de primeira geração em diversos aspectos, a saúde mental inclusa. Isto se dá, provavelmente, porque o imigrante que não nasceu no país de moradia tende a ter mais contato com aspectos da cultura latina que lhe serve de proteção, ou então porque a discriminação só se torna mais evidente nas geração futuras.
A melhora dos parâmetros de saúde mental à medida que tanto o ano de estudo como a idade do adolescente aumentava mostra a capacidade de resiliência e a força mental dos imigrantes latinos.
Apesar de esse estudo sobre discriminação envolver uma população específica, os latinos que migram aos EUA, pode-se generalizá-lo ao nosso contexto. O Brasil recebe cada vez mais imigrantes da África, do Haiti e de países vizinhos, como a Bolívia e a Colômbia, e o respeito a essa população preserva a sua saúde mental e garante que se integrem melhor à nossa sociedade.
A discriminação não está somente relacionada ao fato de ser estrangeiro, como relatei no início do texto, pois dentro da nossa sociedade há muitas possibilidades de se sentir vítima de discriminação.
O fato é que a discriminação pode levar à doença mental. O problema maior se dá quando as pessoas que sofrem com estresse relacionado à discriminação pertencem ao grupo mais marginalizado na sociedade, com menos amparo social e estatal, e, consequentemente, com menos acesso aos cuidados apropriados em saúde mental.
A educação dos nossos jovens, o respeito ao próximo, o fim das atitudes discriminatórias, podem ser bem mais eficazes para garantir o bem-estar das pessoas do que qulaquer medicação.
Referência
Sirin SR, Rogers-Sirin L, Cressen J, Gupta T, Ahmed SF, Novoa AD. Discrimination-Related Stress Effects on the Development of Internalizing Symptoms Among Latino Adolescents. Child Dev. 2015 Feb 11. doi: 10.1111/cdev.12343. [Epub ahead of print]
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