Esquizofrenia e Diabetes

No último dia 14 de novembro celebramos o Dia Mundial do Diabetes. Aproveitando a ocasião, falo sobre as relações entre esta doença e a esquizofrenia.

As pessoas com esquizofrenia têm vários fatores que contribuem para o aumento de chances de desenvolverem diabetes do tipo 2, que é aquele que acomete adultos, tem maior carga genética e está associado ao estilo de vida e dieta, ao sobrepeso e obesidade. A prevalência do diabetes é duas a três vezes maior na população com esquizofrenia em relação à população geral

O portador de esquizofrenia não costuma ter uma alimentação muito saudável e em geral é sedentário. Além disso, as medicações que tratam os sintomas da doença podem ter efeitos colaterais e levar a alterações nos níveis de glicose no sangue, através do aumento da resistência à ação da insulina, o hormônio que promove a entrada da glicose nas células.

É importante frisar que as pessoas com esquizofrenia também têm mais chances de desenvolver alterações nos lipídios ou gorduras do sangue e aumento de peso, o que podemos agrupar como alterações metabólicas. O que é pior é que os nossos pacientes correm mais risco de não serem devidamente tratados para essas condições do que a população geral. Assim, é menos provável que alguém com esquizofrenia receba o tratamento com hipoglicemiantes ou insulina do que alguém sem a doença.

Como dito acima, os antipsicóticos podem levar ao diabetes, que em geral vem acompanhado do aumento de peso. Isso é particularmente importante com os antipsicóticos de segunda geração, mas, mesmo entre eles, há variações. Por exemplo, o risco para desenvolver o diabetes é maior com a olanzapina e a clozapina, enquanto a quetiapina e a risperidona têm um risco intermediário e a ziprasidona, a amisulprida e têm risco virtualmente inexistente.

Não se sabe exatamente o mecanismo pelo qual os antipsicóticos interferem com o controle glicêmico, mas as suspeitas recaem principalmente nos receptores nos quais os antipsicóticos costumam agir, como os receptores de dopamina, de serotonina e de histamina, que além de terem ações cerebrais sobre os sintomas da doença, também agem em outras partes do corpo e nisso dificultam a ação da insulina, promovem o aumento do apetite e do peso etc.

A ação mais importante para lidar com os efeitos colaterais dos antipsicóticos é trabalhar na prevenção do diabetes e das demais alterações metabólicas e isso se faz com a promoção de um estilo de vida mais saudável para os indivíduos com esquizofrenia, com ênfase em uma alimentação mais saudável e na prática de exercícios físicos regulares. A prescrição de um antipsicótico deve sempre vir acompanhada dessas recomendações. Além disso, é importante realizar uma avaliação da glicemia de jejum e de outros parâmetros metabólicos antes de se iniciar um antipsicótico, assim como acompanhar o peso do paciente.

Quando o diabetes e o aumento de peso surgirem com o uso de antipsicótico, devemos tentar trocar a medicação por uma outra que tenha menos chance de causar esses efeitos colaterais. Às vezes, a mudança de medicação não surte o efeito desejado, ou então ela não consegue controlar tão bem os sintomas da esquizofrenia quanto a outra medicação fazia. O jeito é tratar então o diabetes, do mesmo jeito que ele é tratado na população geral.

As alterações metabólicas, como o diabetes, são frequentes nos pacientes com esquizofrenia e, juntamente com outros fatores, como o consumo de cigarro (também frequente nessa população) podem levar a doenças cardíacas que, afinal de contas, vão ser as responsáveis pelo aumento da mortalidade entre aqueles com esquizofrenia. Essas condições devem ser investigadas pelos médicos, que devem oferecer recomendações para a sua prevenção e proporcionar o tratamento adequado. Os pacientes, que assim viverão mais e melhor, só têm a agradecer.

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2 Comments

  1. Katia 23 de abril de 2015 at 22:22

    Por favor. Qual a referência que o senhor utilizou para escrever esse texto? Gostei muito dele, e estou fazendo um trabalho sobre isso, mas estou com dificuldades com referências. Desde já, obrigada.

    1. Dr. Deyvis Rocha 23 de abril de 2015 at 23:51

      Olá, Katia,

      Há várias fontes, você pode acessar o site pubmed.org e digitar a busca “schizophrenia” e “diabetes”, e então você encontrará vários estudos sobre o tema.