Esquizofrenia e Dupla Personalidade

Proponho-lhes o seguinte exercício.

Vão até os espaços de busca dos grandes órgão de imprensa do país, como os jornais de maior circulação e as revistas, e digitem a palavra “esquizofrenia”.

Os resultados vão ser direcionados para 3 tipos de textos. A palavra esquizofrenia pode ser encontrada no tema de saúde, pois, originalmente, se trata de uma condição médica, e os textos, nesse caso, vão falar principalmente das novas pesquisas envolvendo possíveis causas e os últimos tratamentos para essa doença. Esquizofrenia também acontece de ser encontrada nas páginas policias. A mídia costuma dar destaque a casos de violência perpetrados por indivíduos em surto psicótico. Isso vem a reforçar o mito de que as pessoas com esquizofrenia são mais violentas que as pessoas sem essa doença, o que não é verdade. Por último, a palavra esquizofrenia pode ser encontrada em artigos de opinião, no texto de jornalistas ou escritores de diversas áreas, seja a política, a econômica ou mesmo nos textos de futebol! É sobre a forma como esses textos utilizam a palavra esquizofrenia que eu gostaria de falar.

Tomem o artigo que o craque da bola e das letras Tostão escreveu no seu espaço do caderno Esportes, na página E3 da Filha de S. Paulo de 10/10/2012.

Não é a primeira vez que Tostão emprega a palavra “esquizofrenia” em sentido parecido. No dia 26/01/2011, ele escreveu que “o futebol brasileiro está esquizofrênico”, referindo-se ao fato de que o futebol brasileiro não tinha dinheiro para manter os seu melhores jogadores no país, mas pagava altos salários para os atletas em fim de carreira, que não teriam vaga nos clubes europeus. No texto da semana passada, a “esquizofrenia” era por causa do esquema tático da seleção, cujo técnico valoriza a pressão no ataque, mas tem ótimos jogadores de contra-ataque.

A esquizofrenia empregada nos textos jornalísticos tem pouco a ver com a doença mental. Quando se emprega a palavra esquizofrenia como nos artigos de Tostão, o que se quer demonstrar é o contra-senso, a ambiguidade e a convivência absurda de duas ideias totalmente opostas em uma mesma situação. Não é à toa que o título do texto de Tostão seja “Dupla Personalidade”. Afinal de contas, muitas pessoas acham que ter esquizofrenia é o mesmo que ter dupla personalidade.

A esquizofrenia, como se sabe, é uma doença mental complexa que tem como característica a ocorrência de surtos psicóticos, quando a pessoa passa a sofrer de delírios e/ou alucinações, e que nas fases sem surto pode haver diferentes graus de déficit na cognição e uma maior ou menor quantidade de sintomas negativos (falta de iniciativa, falta de vontade, dificuldade em expressar afetos).

A confusão entre esquizofrenia e dupla personalidade talvez venha da própria origem do nome “esquizofrenia”. Em 1911, o suíço Eugen Bleuler quis ressaltar o sintoma que, em sua visão, era o mais importante para diagnosticar essa doença: a fragmentação do pensamento, isto é, o pensamento do paciente não segue um fluxo lógico, as ideias não estão conectadas umas com as outras, a fala se torna ilógica. É o quando muitos familiares dizem que o paciente “não fala nada com nada”. Foi exatamente por causa desse sintoma que ele chamou essa doença de esquizofrenia, que vem da junção de duas palavras gregas, schiz (fragmentado, dividido) e phren (mente). Então, a palavra esquizofrenia quer dizer, em sua origem, “mente dividida”. Não demorou para que as pessoas interpretassem que “mente dividida” fosse o mesmo que “personalidade dividida”, o que, é claro, levou à confusão com a tal “dupla personalidade”.

Enfim, vê-se que o próprio nome “esquizofrenia” para nomear essa doença talvez não tenha sido, já de início, uma boa ideia, já que sujeita, desde sempre, a mau-entendidos. Estás desculpado, meu caro Tostão.

Folha de S. Paulo, 10/10/2012

 

Folha de S. Paulo, 26/01/2011

O fato é que, enquanto não houver uma solução melhor, a esquizofrenia vai continuar sendo chamada de esquizofrenia. No Japão, conseguiram que a palavra “esquizofrenia” deixasse de ser empregada e agora essa doença tem lá um outro nome. Mas isso é uma outra história.

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