Esquizofrenia e Felicidade

Há tempos, a busca da felicidade tem sido o principal objetivo de vida das pessoas. Embora um sentimento raro (como diria o poeta, “tristeza não tem fim, felicidade, sim”), muitos são os caminhos para se alcançá-la: paz espiritual, bens materiais, sucesso profissional, união amorosa, filhos, etc. Seja qual for o método para se atingir a felicidade, é certo que haverá obstáculos impreteríveis. Ter uma doença, por exemplo, é algo que pode tornar a conquista da felicidade um desafio mais difícil. Ter uma doença crônica, muitas vezes debilitante, que provoca alucinações, delírios e desorganização dos pensamentos, tornando a conversa difícil de ser entendida, que pode levar a um quadro de apatia e de perda da motivação, e que está associada a muito preconceito e que impõe, com bastante frequência, uma sobrecarga enorme tanto àquele que sofre quanto aos seus entes queridos, representaria, por certo, a antítese da felicidade. Refiro-me à esquizofrenia, é claro.
Porém, um novo estudo vem mostrar que sim, é possível se atingir a felicidade, ainda que não se esteja livre dos sintomas da esquizofrenia. Pesquisadores norte-americanos compararam o grau de felicidade através de uma escala de autoavaliação aplicada a: 1. pessoas com longa história de doença e sem a remissão total dos sintomas e a 2. pessoas comuns, sem histórico de doença mental. As repostas a esta escala foram tabuladas junto a vários outros aspectos, como os de ordem sócio-demográfico (sexo, idade, nível educacional), clínico (tempo de doença, gravidade dos sintomas, nível de ansiedade, saúde física), bem como aspectos mais psicossociais, como otimismo, resiliência, percepção do estresse, domínio pessoal e suporte social.
Não foi nenhuma surpresa a constatação de que as pessoas sem esquizofrenia se considerassem mais felizes – 83% destes disseram que eram felizes todo o tempo ou a maior parte do tempo. Essa avaliação só foi feita por 37% das pessoas com esquizofrenia.
No entanto, 37% é um resultado incrível, se lavarmos em conta os problemas que enfrentam as pessoas com esquizofrenia. O mais interessante desse estudo não foi a demonstração de que o esquizofrênico pode ser feliz, mas o de que a felicidade não esteve diretamente ligada à gravidade da doença, à idade ou ao tempo de doença, nem mesmo à capacidade cognitiva. Por outro lado, a felicidade esteve sim mais associada a fatores psicossociais positivos, como à maior capacidade de resiliência e de otimismo, ao maior domínio pessoal e à menor percepção do estresse.
Mas, afinal de contas, o que isso pode ter de relevante aos interessados, isto é, as pessoas com esquizofrenia e os seus familiares? Muita coisa! Quase sempre focamos a nossa ação na resolução dos sintomas e na prescrição de remédios, e nos esquecemos de que há outros objetivos no tratamento. O objetivo máximo dos nossos esforços terapêuticos com os pacientes deve convergir para a sua recuperação (para isso, é imprescindível a medicação) associada à felicidade. O fato de que a felicidade está mais associada a traços psicológicos positivos é um incentivo para intervenções psicossociais que promovam o estabelecimento e a busca de objetivos pessoais, a conscientização, as ressignificação de experiências e o reenquadramento cognitivo. É, sobretudo, uma prova de que o tratamento da pessoa com esquizofrenia vai muito além do psiquiatra. O melhor tratamento é o resultado do trabalho em conjunto de médicos, psicólogos, enfermeiros e terapeutas ocupacionais.
Um recurso muitas vezes utilizado quando se quer suavizar o próprio sofrimento é contrapô-lo ao sofrimento alheio. “Eu me sinto mal, mas aquele ali está bem pior do que eu”, ouvimos por aí. Se, por acaso, alguém achar que vai sair por cima ao relativizar a sua vida sofrida comparando-se a uma pessoa com esquizofrenia, corre o sério risco de cometer um quiproquó.

Referência:
Palmer BW, Martin AS, Depp CA, Glorioso DK, Jeste DV. Wellness within illness: Happiness in schizophrenia.
Schizophr Res. 2014 Aug 14. pii: S0920-9964(14)00384-3. doi: 10.1016/j.schres.2014.07.027.

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