Esquizofrenia: estratégias farmacológicas para além dos psicotrópicos

Desde os anos 50 do século passado, o eixo do tratamento da esquizofrenia tem sido a terapia farmacológica com os antipsicóticos. No entanto, a resposta clínica a esses medicamentos é variável e tende a ser mais efetiva contra os sintomas positivos (delírios, alucinações e desorganização) do que contra os sintomas negativos (apatia, retraimento social e redução na expressividade emocional) e o prejuízo cognitivo. Por esse motivo, várias terapias farmacológicas associadas aos antispsicóticos têm sido empregadas nas últimas décadas, como os antidepressivos, os benzodiazepínicos, os estabilizadores de humor e o lítio.
Para além do uso de psicotrópicos, alguns estudos têm mostrado que medicações não diretamente associadas ao ramo da psiquiatria podem trazer benefícios quando tomados em conjunto com os antipsicóticos.
Ainda que a causa da esquizofrenia não esteja ainda elucidada, há evidências que mostram que essa doença pode ser o resultado de processos inflamatórios que ocorrem no cérebro, como resultado da interação entre genes e ambiente, como infecções, traumas, nutrição e estresse. Nesse processo inflamatório, ocorre também a perda de função de células encarregadas de nutrir o neurônio, assim como a produção excessiva de radicais livres e outras substâncias neurotóxicas. O resultado disso seria a menor proliferação de neurônios, menor conectividade entre as áreas cerebrais e até redução do tecido do cérebro.
Essa abordagem da gênese da esquizofrenia levou à tentava de se administrar anti-inflamatórios para trará-la. Os anti-inflamatórios não esteroides clássicos são aquelas medicações desde muito tempo atrás empregadas para os sintomas de dor e de febre, como a aspirina, o diclofenaco, o celecoxib (Celebra), etc. Segundo os estudos, a aspirina é a única medicação dessa classe que mostrou melhora consistente dos sintomas da esquizofrenia quando prescrita junto a um antipsicótico. Outras substâncias que não são classificadas como anti-inflamatórias, mas que entre as suas múltiplas funções também está a de coibir a cascata inflamatória, como o estrogênio e a n-acetilcisteína (Fluimucil), também mostraram efeito positivo.
As vitaminas também têm sido estudadas no tratamento da esquizofrenia. Já se recomenda há muitos anos a prescrição de vitamina E para os pacientes que desenvolvem um efeito colateral pelo uso crônico de antipsicóticos chamado discinesia tardia, em que a atividade motora está prejudicada. O que um grupo de cientistas norte-americanos mostrou recentemente é que a suplementação de folato (também conhecido como vitamina B9) por 12 semanas melhorou os sintomas negativos dos pacientes com esquizofrenia. Vários ramos de pesquisa (epidemiológica, bioquímica e genética) já apontavam para a deficiência de folato como um fator de risco para a esquizofrenia. Nem todas os pacientes da pesquisa obtiveram melhora sintomática, somente aqueles que tinham uma variação genética que fazia com que a sua absorção do folato dos alimentos fosse deficitária.
No campo da prevenção da esquizofrenia, muito tem se pesquisado a respeito de como se pode prevenir a ocorrência de um episódio psicótico em pessoas que se encontram num estado mental de risco, isto é, que apresentam sintomas psicológicos e de comportamento pouco específicos, queda do rendimento profissional ou escolar, e que podem até manifestar sintomas psicóticos atenuados. Entre pessoas com “ultra-alto risco” de psicose, em 20 a 40% dos casos vai ocorrer a transição. Até agora, duas intervenções mostraram efeitos positivos em impedir essa transição: o uso suplementar de ácidos graxos ômega-3 na dieta e, principalmente, o emprego de um recurso não medicamentoso, a psicoterapia cognitivo-comportamental.
É importante ressaltar que essas estratégias de terapia e de prevenção da esquizofrenia ainda carecem de provas de eficácia suficientes para alterar a conduta clínica dos psiquiatras. Para isso, mais estudos científicos são necessários. Pode-se dizer, no entanto, que os  dados acima nos permitem ficar esperançosos de que novas abordagens para o desafio da esquizofrenia, cada vez mais seguras e eficazes, em breve cheguem aos nossos pacientes.

Bibliografia
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