Esquizofrenia: Uma Palavra de Esperança

Estamos vivendo mais um Natal e 2012 já bate à porta. Como sempre, é um tempo propício para o exercício da bonomia e também para refletir sobre as nossas ações ao longo do ano.

Alguns das pessoas que conheço dizem que essa é uma época triste. Talvez seja porque em meio à toda a abundância de ofertas, de consumo em massa, de Papais Noeis e enfeites natalinos que emulam o clima do hemisfério norte em nosso verão tropical, alguém se lembre que a origem de tal celebração foi a vinda ao mundo de alguém muito pobre e a constatação da contradição entre a nossa opulência natalina e, digamos assim, o primeiro Natal, se manifeste em algumas pessoas como um sentimento de tristeza.

Nós que trabalhamos com pessoas com transtornos mentais graves e crônicos estamos acostumados a ver pacientes que pioram dos seus sintomas e até precisam ser internados nesse período do ano. Creio que o que se passa com as pessoas que ficam tristes no Natal também se passa com os portadores de esquizofrenia, com  desvantagem, para os pacientes, de eles terem maior dificuldade de lidar com o estresse emocional. Além do mais, o Natal de hoje é sempre o Natal de hoje mais a lembrança dos Natais passados, Natais da infância, de um tempo de inocência, de um tempo sem doença e que não volta mais. Afinal, como alguém pode retornar a um tempo de alegria após uma doença terrível como a esquizofrenia ter se abatido sobre ele? Como alguém com esquizofrenia pode não ser atormentado pelo fantasma do Natal passado, tal qual o personagem de Dickens, que lhe mostra que a sua vida foi devastada e as esperanças de uma vida normal ficaram para trás, substituídas por sintomas que podem não melhorar mesmo com o uso de várias medicações, por preconceitos e estigma social, pela lembrança terrível dos momentos em que ele perdeu o controle sobre si e a psicose imperava em seus pensamentos e ações?

Não sei se de fato alguém pode recuperar os Natais passados, seja doente mental ou não. Machado de Assis mesmo perguntou se “mudaria o Natal ou mudei eu?”

Mas a esperança é algo que podemos ter, mesmo aqueles que tem esquizofrenia e os seus familiares. É isso o que sinto também a cada fim de ano, a cada confraternização que fazemos lá no Programa de Esquizofrenia – o PROESQ da UNIFESP – em que misturamos os técnicos e os pacientes em uma bagunça animada por apresentações musicais e encenações em que todos somos iguais e colaboramos.

Sobretudo, restabelece em mim a alegria de ter escolhido a psiquiatria e de trabalhar majoritariamente com pacientes com esquizofrenia.

A semana de Natal começou bem, em matéria de esperança, ao ouvir a entrevista que  Jorge Cândido de Assis concedeu à CBN, neste domingo, uma semana antes do Natal. Jorge é um portador de esquizofrenia que tem exercido uma função essencial junto à Associação Brasileira de Amigos, Familiares e Portadores de Esquizofrenia, a ABRE, no acolhimento aos pacientes e aos familiares de primeira viagem em surtos psicóticos e no esclarecimento sobre a doença, que ele faz através da publicação de livros (sim, Jorge é um escritor), como o Entre a Razão e a Ilusão e a série de livretos “Conversando Sobre a Esquizofrenia”, que pode inclusive ser baixada através do sítio da ABRE.

Jorge é um cara que teve o primeiro surto psicótico no começo da idade adulta, mas que demorou 16 anos para assumir que tinha a doença, período no qual lidou com internações, abandonos de tratamento e 4 surtos psicóticos, num dos quais perdeu a perna direita, ao ser atingido por um trem. Somente com a ajuda dos familiares, que não desistiram dele, Jorge pode consentir em ser tratado, em tomar todas as medicações. Após isso, desde 2002 Jorge não é internado.

Na entrevista que ele deu à jornalista Pétria Chaves, ao vivo para todo o Brasil, ele explica o que é a esquizofrenia e os seus sintomas através de sua história pessoal, da experiência de quem já teve delírios e alucinações e passou por isso. Claro, Jorge se recuperou bem, hoje não tem nenhum sintoma de esquizofrenia, o que não ocorre com uma considerável parcela de pacientes, mesmo com aqueles que sempre tomaram as medicações da forma que foram prescritas pelo médico.

É a mensagem de esperança que Jorge transmite que quero compartilhar com todos nesse Natal. As suas últimas palavras nessa entrevista devem servir de guia a todos aqueles que sofrem o fardo da esquizofrenia, portadores ou familiares: “hoje, eu sou uma pessoa feliz”. Apesar de tudo, depois de todas as dificuldades que acompanham a esquizofrenia, e ainda que as coisas não voltem mesmo a ser como elas eram em Natais passados, nada como poder dizer essas palavras ao fim de uma jornada, no caso, esse ano de 2011.

A todos um Natal cheio de paz. Voltamos a nos falar em 2012.

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