Eu também protesto

Algo incrível parece estar acontecendo no Brasil com toda essa onda de protestos que toma conta de várias cidades do país. Correndo o risco de estar sendo precipitado e tudo realmente ser apenas fogo de palha, eu diria que estamos testemunhando a História à medida que ela acontece. Será o nosso Junho de 2013 o que foi o Maio de 68 dos franceses?

Pegando carona nas justíssimas reivindicações da gente que sai às ruas e empunha cartazes contra o aumento das passagens, contra a violência, a corrupção, os maus gastos públicos e até mesmo, como vi num cartaz ontem quando estava no metrô de São Paulo, pelo amor à vida, quero aqui fazer eu também o meu protesto quanto àquilo que indigna.

Claro, me revolto com a nossa endêmica impunidade, a desfaçatez dos nossos políticos e a falta de segurança nas nossas cidades, mas como este espaço é dedicado às coisas da psiquiatria e da saúde mental, o meu protesto é dedicado a estes temas.

Protesto contra a falta de assistência em saúde mental para a nossa população. A psiquiatria não chega a quem sofre de transtornos mentais. Uma cidade como São Paulo tem mais de 10% dos seus moradores sofrendo com algum tipo de transtorno mental, dos mais leves aos mais graves, e somente uma ínfima porcentagem destas pessoas consegue encontrar tratamento. É óbvio que não há psiquiatras suficientes para dar conta de atender toda esta população e é por isto que deve haver investimento na capacitação dos clínicos gerais que trabalham em postos de saúde espalhados pelos vários cantos da cidade no sentido que que saibam reconhecer o sofrimento das pessoas e fazer o diagnóstico correto e o tratamento adequado dos quadros mais comuns na população, que são os transtornos de ansiedade e a depressão. Mas não é isso o que acontece. Muitos clínicos e muitos postos de saúde não querem saber de atender quem sofre de problemas psiquiátricos e basta que o paciente chore, por qualquer motivo, na hora da consulta, que já é encaminhado ao psiquiatra. Adivinhem quanto tempo essa pessoa vai demorar até que enfim seja avaliada por um psiquiatra? Se tivéssemos um serviço de atenção básica à saúde mental não teríamos tanta gente com sintomas que seriam facilmente tratáveis se tornando crônicos.

Protesto contra a falta de leitos hospitalares para a internação das pessoas com doenças mentais mais graves, como os surtos de esquizofrenia e de transtorno bipolar, ou mesmo os casos de depressão onde há um grande risco de suicídio. Ninguém gosta de levar um filho ou um irmão para a internação psiquiátrica, mas ela é fundamental para garantir a segurança e a vida de um paciente. Porém, é comum que um paciente não consiga a internação porque não há vagas para interná-lo. Outra coisa que escuto com frequência dos familiares dos pacientes é que elas ligam para o SAMU quando o paciente está necessitando ir a uma emergência, entretanto o SAMU nunca chega. “Eles dizem que só vão se a pessoa estiver em surto”, é o que me dizem. Precisamos sim de mais leitos em hospitais gerais e em hospitais psiquiátricos.

Protesto contra o preconceito contra quem tem doença mental, pois se já é desagradável o fato de que se tem uma doença mental que em muitos casos vai requerer o uso de uma medicação para o resto da vida, imagine-se tendo de suportar os olhares negativos de quem está ao seu redor, o desprezo de quem acha que todo mundo que vai ao psiquiatra é louco e de quem acha que a doença mental não existe, que essas coisas são frescura ou falta de caráter. Esse preconceito afasta as pessoas do tratamento. Muitos sofrem até por anos sem querer procurar um psiquiatra porque também têm o seu autopreconceito. Antigamente, ninguém sequer pronunciava a palavra câncer, era melhor que se falasse “CA”, mas hoje nós vemos inserções na televisão mostrando como se faz o autoteste de mama. Isto certamente contribuiu para reduzir o estigma do câncer e tornou o diagnóstico mais precoce e, assim, o tratamento mais eficiente. Porque não fazer o mesmo tipo de divulgação nas TVs com doenças como a esquizofrenia e a depressão?

Estes são os meus protestos. E você, contra o que protesta?

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