Fumantes crônicos têm mais chances de morrer por suicídio

Todo mundo sabe que o hábito de fumar, ainda que possa ser até agradável (do contrário, não haveria fumantes), não traz nenhum benefício à saúde, aliás, muito pelo contrário, como bem nos mostram aquelas fotos que vêm com os avisos do Ministério da Saúde nos maços de cigarro.

Levando-se ao extremo a ideia que uma parcela ainda considerável da população tem um hábito que traz consigo vários prejuízos à saúde, aproximando-a da morte, pode-se bem dizer que o fumante comete um suicídio em longo prazo.

Não foi exatamente essa análise que fez um estudo recente sobre o qual comento agora, mas as suas descobertas apontam para uma relação entre o hábito de fumar e o suicídio.

Segundo esse estudo, publicado na revista Psychiatric Services in Advance, o hábito de fumar pode ser um fator contribuinte independente para o suicídio em homens. A análise dos dados comparando falecimentos por suicídio com falecimentos por acidente e por homicídio revelou que o consumo crônico de cigarros estava associado ao aumento da probabilidade de morte por suicídio, enquanto deixar de fumar e períodos mais longos de abstinência estavam associados a menor probabilidade de suicídio.

Os pesquisadores canadenses que realizaram o estudo utilizaram dados do Levantamento Nacional de Mortalidade dos EUA de 1993 para comparar as mortes naturais, acidentais, por suicídio e por homicídio. Os dados incluíam informações sobre o hábito de fumar do indivíduo durante a vida, se deixou-se de fumar em algum momento, e a duração da abstinência do fumo. Também se incluiu uma “autopsia psicológica”, realizada a partir de entrevistas com um parente próximo, para se coletar história clínica de depressão, consumo de álcool ou uso de drogas, sobre ter vivido sozinho no último ano de vida, se mantinha uma arma de fogo – todos fatores potenciais para uma morte violenta.

Eles descobriram que homens que se suicidaram fumaram por uma fração maior das suas vidas comparados com os que morreram nos grupo controle. Além disso, tinham menos probabilidade de terem abandonado o fumo em qualquer momento da sua vida, e ficaram abstêmios por uma menor fração das suas vidas. Essa associação entre o hábito de fumar e o risco de suicídio permaneceu mesmo após o controle estatístico que se exerceu para outros possíveis fatores de risco para o suicídio, o que sugere que o hábito de fumar por si só poderia ser considerado um fator de risco independente.

Agora, peço calma aos meus amigos fumantes empedernidos. Os resultados acima não querem dizer que vocês sejam suicidas em potencial, ou mesmo que possa haver, numa bituca de cigarro, alguma substância até então desconhecida que atice a pulsão de morte, como se já não bastassem todas as partículas cancerígenas que se inala a cada tragada.

Acontece que o hábito de fumar pode ser uma forma de auto-medicação, que muitas pessoas com transtorno mental empregam no intuito aliviar algum sintoma desagradável. Não é incomum que me cheguem pacientes ao consultório que estejam sofrendo de depressão e/ou de ansiedade e que me relatem, assustados, que duplicaram ou triplicaram a quantidade de cigarros que fumam no dia a dia. O problema é que essa auto-medicação pode tornar-se um vício. Segundo o autor do artigo, o Prof. Dr. Lloyd Balbuena, da Universidade de Saskatchewan, “no curto prazo, fumar melhora o humor, mas, no longo prazo, fumar piora o humor e prejudica o funcionamento cognitivo. Não é nada improvável que com esses desafios, a pessoa seja mais vulnerável a fatores estressantes, que poderiam ser enfrentados de uma forma mais fácil.”

Não deixa de ser mais um incentivo para que alguém pense duas ou três vezes antes de começar a fumar.

Referência

Balbuena L, Tempier R. Independent Association of Chronic Smoking and Abstinence With Suicide. Psychiatr Serv. 2014 Oct 1. doi: 10.1176/appi.ps.201300509.

 

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