Futebol e Psiquiatria: Heleno de Freitas

Não se fala de outra coisa que não seja futebol: jogos e mais (bons) jogos, mesas redondas, noticiários e propagandas de TV, à mesa de bar ou no intervalo do café, a Copa do Mundo está entre nós. Pois ele, o futebol, está presente neste blog também.
Apesar de jogadores de futebol serem seres humanos comuns e poderem, como todos nós, adoecer mentalmente, não é comum, ou ao menos não é divulgado, que jogadores procurem um psiquiatra para tratar de algum transtorno mental. Alguns clubes e creio que quase todas as seleções contam em sua comissão técnica com psicólogos, mas estes estão aí mais para ajudar os jogadores a lidar com os momentos de ansiedade em situações difíceis, como numa disputa por pênaltis.
Apesar disso, não deixam de ser conhecidos casos de boleiros ou ex-boleiros envolvidos com o álcool ou outras drogas, alguns casos até rumorosos,  com os de Maradona, que teve a carreira prejudicada pela dependência da cocaína, que algumas vezes quase o levou à morte. A mesma sorte não tiveram 2 ex-jogadores que envergaram a camisa da seleção brasileira em Copas do Mundo: o Dr. Sócrates, o capitão da inesquecível seleção de 82, morto em 2011, e mais recentemente, Marinho Chagas, o melhor lateral esquerdo da Copa de 74, morto há algumas semanas, tiveram a vida abreviada pelo consumo excessivo de álcool. Mas a lista é mais extensa contempla jogadores daqui e de fora: Jobson, Paul Gascoigne, Caniggia, etc.
Porém, a relação entre o futebol e a psiquiatria – a loucura mesmo, nunca foi tão intensa como em Heleno de Freitas.
Maior craque do Botafogo na era pré-Garrincha, o craque nascido em 1920 em São João Nepomuceno, interior de Minas, brilhou nos gramados cariocas antes mesmo que o seu maior palco fosse erguido, o Maracanã. A sua classe e o requinte dentro de campo, o seu passe certeiro, o seu controle de bola, o seu faro de gol levavam ao delírio as massas que acompanhavam nas arquibancadas ou através das ondas de rádio os embates ludopédicos nos anos 40 do século passado.
A virtuose de Heleno com a bola foi cantada até mesmo pelo escritor Eduardo Galeano: “Foi em 1947. Botafogo versus Flamengo, no Rio de Janeiro… Heleno estava de costas para o gol. A bola chegou por cima. Ela a parou com o peito e deu a volta sem a deixar cair. Com o corpo em arco e a bola no peito, enfrentou a situação. Ele o gol e ele, uma multidão. Na área do Flamengo, havia mais gente que em todo Brasil. Se a bola fosse ao chão, estava perdido. E então Heleno se pôs a caminhar, sempre curvado para trás, e com a bola no peito atravessou tranquilamente as linhas inimigas. Ninguém lhe poderia tirar a bola sem cometer falta, e estavam todos na grande área. Quando chegou às porta do gol, Heleno endireitou o corpo. A bola deslizou até os seus pés e ele arrematou.”
A habilidade de Heleno só rivalizava mesmo com o seu temperamento. E que temperamento! Intolerante aos mínimos erros dos próprios companheiros, um passe errado era a senha para o descontrole emocional e para a metralhadora giratória de insultos e impropérios. Sem dó nem piedade daqueles que vestiam as mesmas cores que defendia em campo, costumava desqualificar e mesmo humilhar quem achava que não estava a altura de jogar no seu time. Os árbitros eram a vítima preferencial do seu destempero, e que revidavam com várias expulsões de campo. Era apenas pela categoria fora do comum com a bola nos pés que o comportamento de Heleno era tolerado pelos dirigentes dos clubes pelos quais passou.
Fora de campo, a mistura de beleza física, corpo atlético, a cultura geral e a lábia de advogado (Heleno formou-se em Direito) fazia sucesso entre a sociedade carioca da época e, em especial, entre as mulheres. E não se furtava da companhia de belas mulheres. Provavelmente, foi com uma delas que adquiriu a doença que o levaria à morte.
A sífilis atingiu-lhe o cérebro e, de início, causou-lhe uma exacerbação do seu temperamento irascível. Os seus ataques de cólera se tornaram cada vez mais frequentes e por causas cada vez mais irrisórias. Brigava com todos em campo, colegas de clube, adversários, árbitros e torcida. Isso o afastou definitivamente da seleção brasileira e acabou não sendo convocado para a Copa do Mundo de 1950. Passou a beber mais, a ser visto cada vez mais frequentemente com o seu tudo de lança-perfume a tiracolo. Corroía o seu patrimônio com gastos e mais gastos até que dentro de pouco tempo chegasse à bancarrota. Claro, o seu futebol ruía à medida que a loucura se apossava de si. Já ninguém o queria em seu time, pois não havia mais a habilidade e o vigor físico que contrabalançasse as suas crises furiosas. Não havia mais espaço para ele no mundo do futebol. Assemelhava-se mais a um cão raivoso do que a um desportista.
O quadro clínico se foi progredindo e Heleno passou a se comportar de maneira mais estranha, manifestava ideias paranoides e de grandeza mal sistematizados, seguidos de algumas alucinações visuais e auditivas.
Já não era mais capaz de gerir-se, pois os primeiros sinais da terrível paralisia geral progressiva assomavam. A sua atividade mental se foi declinando até se atingir a demência, com decadência física e caquexia. Heleno de Freitas passou os últimos anos da sua vida num hospício em Barbacena, na sua Minas natal.
Uma vida breve e intensa que se apagou aos 39 anos.

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