George Michael e as crises de ansiedade

George-MichaelFama, beleza, sucesso e riqueza. Ingredientes para uma vida perfeita, não é mesmo? Se eu ou você fôssemos agraciados com tais ingredientes, certamente não nos faltariam motivos para sentir felicidade. Porém, o exemplo de certas pessoas refuta o conceito de que a vida perfeitamente feliz depende de coisas como fama e riqueza. Cito-lhes Elvis Presley, Marilyn Monroe, James Dean, Jim Morrison, Heleno de Freitas e fico por aqui, já que a lista é imensa. Será que essas pessoas tinham algum tipo de problema mental que as impedisse de desfrutar da riqueza que acumularam com o seu talento? Talvez não fossem exemplos de equilíbrio mental, mas é difícil estabelecer se havia, nesses casos, algum diagnóstico psiquiátrico (além de abuso e dependência química), ou se esse diagnóstico seria prévio ao irromper da fama e do sucesso, e com ele a riqueza, ou se teria sido justamente a convivência nesse mundo do espetáculo o que os levou à ruína e, eventualmente, à morte precoce.

Quem não temos dúvida de que está sofrendo de um problema mental é o cantor inglês George Michael. Apesar de já ter vendido mais de 100 milhões de álbuns, talvez você precise ter mais de 25 anos para saber quem é esse cantor, até porque o auge do seu trabalho se deu nos anos 80 e também porque aquilo que tem mais chamado a atenção para George Michael nos últimos tempos seja o seu comportamento fora do palco. E é o que ocorre mais uma vez. George Michael cancelou shows que iria fazer na Austrália por causa das crises de ansiedade. Aparentemente, tudo começou após o cantor ter adquirido uma pneumonia bastante grave no ano passado, quando ficou internado em uma UTI sob risco de morrer. O risco passou, mas na sua memória ficou gravada a sensação desesperadora que ele deve ter sentido nos momentos de maior perigo. Freud mesmo já havia falado sobre como a memória de eventos traumáticos (o bebê que se separa da mãe) pode se prolongar pela vida em forma de sintomas de ansiedade. Diante de uma realidade tão opressora que é a proximidade do fim, da morte, para muitas pessoas a reação natural é sentir um medo avassalador (pânico). E as reações físicas desse medo são uma resposta natural do organismo, que se prepara para ou lutar contra o que nos ameaça ou fugir disso, mas sempre com o propósito de preservar a existência. Daí o aumento dos batimentos cardíacos e o aumento do ritmo respiratório, que devem fazer com que mais sangue oxigenado chegue aos nossos músculos retesados e prontos para a ação, os braços e pernas que se tornam gelados porque esse mesmo sangue é desviado das pequenas vias superficiais da pele para irrigar os órgãos mais importante. Só que uma coisa é se preparar para um perigo real, outra é quando o perigo é imaginado, situação que vem de maneira súbita, às vezes quando menos esperamos, como acontece com George Michael (e não só com ele, senão com milhões de pessoas que sentem os sintomas de um ataque de pânico): o corpo se contorce, o peito aperta, a respiração fica curta, o coração acelera, as mãos tremem, as pernas bambeiam, numa parte do corpo se sente calor, noutra se sente frio, dá um nó na garganta, dá uma sensação de perda de controle e vontade de simplesmente sair do lugar onde se está. Já encontrei muitas pessoas que me relataram que na primeira crise de pânico que tiveram pensaram que ali iriam morrer.

Provavelmente, as crises ansiosas de George Michael vêm do medo que teve da morte que persiste em sua lembrança e que parece estar vindo à tona com tal frequência que o impede de exercer as suas atividades normais.

Espero que este grande cantor consiga superar essa dificuldade com o tratamento adequado.

É mais um exemplo, pode-se dizer, da democracia dos sintomas psiquiátricos. Ocorrem em qualquer, independente da fama, do poder e da riqueza. A diferença é que quem tem fama, poder e riqueza consegue tratamento mais facilmente do que quem não tem essas coisas. Enfim, que a possível vitória de George Michael contra os sintomas de pânico possa servir de exemplo a tantos que padecem desse mal.

(Visited 18 times, 1 visits today)