Loucos e loucos

A toda hora estamos chamando alguém de louco, em geral, depreciando este alguém. Alguém que comete atos de violência, que ultrapassa o farol vermelho e provoca acidentes, assassinos-suicidas em escolas e até mesmo ditadores árabes que fazem a população de escudos humanos são chamados de loucos. Há a loucura de amor, sim, quando estamos apaixonados, afim de uma pessoa, em geral estamos “loucos” por ela. Mas vamos nos ater ao caráter pejorativo do termo, que prevalece.

O que me incomoda, como psiquiatra, é o uso disseminado da palavra “louco” para quem comete atos de violência, pessoas brutas, maldosas, que em geral inspiram temor e o afastamento das demais pessoas. Não vou discutir as razões disto, talvez em outro momento, mas o “louco” também é associado aos pacientes que trato. Então, quando, por alguma razão, alguém está me conhecendo e descobre que sou psiquiatra, a primeira pergunta que lhe vem a cabeça para me fazer é se eu não tenho medo de trabalhar com gente louca, com loucos. Esta associação é certamente desagradável, mas é o que acontece quando o termo médico histórico para designar pacientes  psiquiátricos acometidos por delírios e alucinações e o termo que define condutas sociais desviantes que tendem para a violência são os mesmos. Acho que isto contribui bastante para o estigma que doente mental tem de enfrentar, não bastando apenas sofrer de uma doença que causa sério prejuízo do funcionamento por si só, convive-se com preconceitos, medo e afastamento das pessoas. Afinal, se a pessoa é “louca”, com certeza ela vai querer me atacar, fazer algum mal a mim, como aconteces com esses loucos por aí que espancam crianças, que matam as pessoas por nada!

Por extensão, o termo “louco” acaba aplicando-se aos demais pacientes que passam pelo consultório do psiquiatra. Quando eu mencionei pela primeira vez que queria ser psiquiatra, lá nos primeiros anos de curso de medicina, várias pessoas me disseram que “só louco é quem vai ao psiquiatra” e “todo psiquiatra é louco”, e assim vemos como o preconceito, na verdade, abrange tudo o que tem a ver com a doença mental.

Pensem só em quantas pessoas não passam por algum sofrimento mental passível de tratamento, mas que não o procuram devido a ideias preconcebidas como estas. Muitas, sem dúvida.

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