Notas sobre o Rivotril – Parte 1

Uma das medicações mais utilizadas no Brasil pertence à seara psiquiátrica. Trata-se do clonazepam, um tranquilizante da classe química dos benzodiazepínicos que é mais conhecido pelo nome comercial de Rivotril. Vez por outra, vemos reportagens em jornais ou matérias de capa de revista enfocando essa substância, em que se põe em relevância os aspectos negativos do seu uso disseminado. No começo deste ano, uma pesquisa sobre o uso do clonazepam e outros tranquilizantes foi destaque na mídia. Ela revelava que, entre 2009 e 2013, havia ocorrido um aumento de 42% no uso dessas medicações, uma direção oposto ao de países como Inglaterra e Alemanha, onde, no mesmo período, registrou-se uma queda de 30% na comercialização desses produtos na última década. Foi um estrondo. De um lado, os psiquiatras acusavam os colegas de outras especialidades por prescreverem tranquilizantes sem a devida necessidade, e por mais tempo e com uma dose maior do que se recomenda. Muitas críticas foram dirigidas à nossa vida moderna, à pressão da sociedade que não pode parar, aos sequiosos por estar sempre conectados e que só, de fato, relaxam, se ingerirem algum comprimido comprado na farmácia. Claro, não se esqueceu de criticar a ganância dos laboratórios farmacêuticos e a proliferação das farmácias, onde se pode conseguir medicação para o controle de todos os instintos: para dormir, para ficar acordado, para se abrir o apetite, para deixar de comer, para ser um ás sexual, etc.

Não há dúvida que o desenvolvimento dos tranquilizantes benzodiazepínicos foi um marco na psiquiatria, pois proporcionou um tratamento eficaz para pessoas que sofriam com quadros de ansiedade incapacitante, especialmente quando se compara a segurança dessas medicações com o arsenal terapêutico que dispúnhamos antes, como os brometo e os barbitúricos, que causam uma série de efeitos colaterais, podem induzir à psicose e mesmo levar à morte, já que a sua dosagem tóxica é muito próxima da dose terapêutica (se Marilyn Monroe tivesse tomado vários benzodiazepínicos naquela noite de agosto de 1962, ao invés de uma associação de hidrato de cloral com barbitúrico, certamente teria sobrevivido – infelizmente, o diazepam só começaria a ser comercializado no ano seguinte ao de sua morte).  Quando falo em ansiedade incapacitante, é óbvio que não me refiro à ansiedade que todos sentimos no nosso dia a dia, por exemplo, quando o nosso chefe nos liga dizendo que quer falar conosco imediatamente, ou quando se convida aquela garota linda para sair. Refiro-me ao quadro de ansiedade e medo extremo que ocorrem na síndrome do pânico e na agorafobia, ao nervosismo e à tensão constante que caracterizam o transtorno da ansiedade generalizada.

Com o objetivo de trazer mais esclarecimentos a respeito do clonazepam e demais tranquilizantes da classe dos benzodiazepínicos, enfatizando mais os aspectos positivos do que os negativos, segue um texto em forma de respostas a alguns possíveis questionamentos sobre o assunto que, imagino, boa parte da população deva ter.

1. Qual seria principal indicação de uso do Rivotril?
O Rivotril (clonazepam) é um tipo de ansiolítico (isto é, uma substância que diminui a ansiedade) benzodiazepínico, um grupo ao qual pertencem também o Valium (diazepam), o Lexotan (bromazepam), entre outros, e como os demais membros dessa classe, está indicado, na psiquiatria, para os casos de transtorno de ansiedade e insônia. Também é muito empregado como anticonvulsivante.

2. De que forma essa medicação age no cérebro, como ela interage no organismo para trazer os benefícios ao paciente?
O Rivotril atua através do seu efeito no receptor do ácido gama-aminobutírico, mais conhecido por GABA, abundante em todo o sistema nervoso central (SNC). O GABA é considerado o principal neurotransmissor inibitório do SNC dos mamíferos. Basicamente, o Rivotril, como os demais ansiolíticos, potencializa a ação do GABA no cérebro. É assim que o Rivotril exerce as suas propriedades farmacológicas: ansiolítica, hipnótica, anticonvulsivante e relaxamento muscular. A ação desse medicamento é bastante rápida, após alguns minutos de uma única dose, ele começa a agir, o que é muito importante para quem está experimentando uma crise de ansiedade aguda ou para quem precisa dormir depressa.

3. Como o Rivotril traz a calma ao paciente que tem transtorno de ansiedade generalizada ou síndrome do pânico?
Com o Rivotril, sucedeu o que frequentemente ocorre na psiquiatria, primeiro, se descobre o efeito clínico e uma medicação, depois, se tenta encontrar em que região cerebral age aquela medicação. Assim, como o efeito da medicação é a diminuição da ansiedade, e como o Rivotril age no GABA, a lógica nos diz que o GABA exerce uma função importante na regulação da ansiedade. Até agora, não se conseguiu verificar ao certo nenhum defeito específico no receptor do GABA que pudesse estar relacionado aos transtornos ansiosos. É provável que, com a ampla distribuição de receptores GABA no cérebro, eles exerçam influência em vários sistemas neuronais e a diferente localização dos receptores pode estar relacionada a um ou a outro quadro clínico, como a ansiedade generalizada, relacionada à área da amígdala cerebral, ou a síndrome do pânico, relacionada à substância cinzenta periaquedutal do mesencéfalo.

4. O Rivotril causa dependência? É o mesmo processo que ocorre com álcool e drogas?
Dentro de um contexto clínico, isto é, usado de maneira controlada, em doses adequadas, por um tempo apropriado, no tratamento de uma doença, muito raramente se desenvolve a dependência. É muito raro que se encontre um padrão de comportamento na pessoa que usa o Rivotril que seja semelhante ao dependente químico, como, por exemplo, muito tempo gasto para se conseguir a substância, o prejuízo em atividades ocupacionais, sociais e recreativas pelo uso do Rivotril. Os quadros de dependência aos benzodiazepínicos são observados com o seu uso fora do contexto clínico, em pessoas que costumam abusar de múltiplas drogas, como o álcool, cocaína, etc.
Não se deve confundir, todavia, a necessidade de se tomar o Rivotril por tempo prolongado com uma dependência da substância. Muitas vezes, é a patologia psiquiátrica em si que demanda o uso continuado da medicação. Quem tem transtorno ansioso crônico e recorrente pode necessitar tomar o Rivotril de maneira contínua.

Este texto terá continuação na próxima semana.

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