Notas sobre o Rivotril – Parte 2

Bord de Mer -  Nicolas de Staël, 1952Hoje em dia, parece que não se considera mais os benefícios que uma medicação como o Rivotril pode trazer. Uma paciente que trato com Rivotril por causa de síndrome do pânico me contou que, um dia desses, precisou ir a uma emergência médica por uma razão qualquer, e a médica, na avaliação, lhe perguntou e tomava algum remédio. Ao ouvir o nome do tranquilizante, levantou os olhos da ficha de atendimento sobre a qual rabiscava e encarou, cenhosa, a minha paciente: “cuidado, hein! essa medicação pode causar dependência!” Creio que a médica deve ter pensado que tinha diante de si uma adicta incontrolável. A minha paciente lhe respondeu, cortesmente: “é por isso que estou fazendo fazendo acompanhamento médico”. Eu não teria dito melhor.
É claro que a atitude da minha colega médica revela a sua preocupação com a paciente, no entanto, revela também a que ponto chegou a “rivotrilfobia”, ou o “pânico do Rivotril” que acomete a nossa população, e que não poupa nem mesmo a classe psiquiátrica. A crítica que se deve fazer ao uso exagerado ou inapropriado da substância recai sobre a própria substância, como se ela fosse a fonte do mal. O perigo é que os psiquiatras, contaminados pelo imperativo disseminado de se prescrever cada vez menos tranquilizantes, deixemos de utilizar uma excepcional ferramenta terapêutica. Enquanto isso, ela segue sendo prescrita por médicos não psiquiatras, que, decerto, têm boa vontade, porém, menos conhecimento dos protocolos de tratamento e das doses mais adequadas para garantir a efetividade da terapia.
A seguir, mais alguns questões a respeito do clonazepam/Rivotril e demais tranquilizantes benzodiazepínicos, que completa o post publicado semanas atrás.
1 – Na prática, muitos pacientes recebem a receita do médico, passam a tomar e depois não voltam mais fazer consultas. O uso indiscriminado desse remédio gera o quê?
O uso indiscriminado do Rivotril pode levar ao seu consumo  excessivo, desnecessário, podendo, sem a supervisão médica, levar a casos de abuso dessa medicação e de dependência. Muitas vezes, o uso inadequado do Rivotril é responsabilidade do próprio médico. Explico. Os maiores prescritos de Rivotril e afins não são os psiquiatras, mas os clínicos gerais. Nem sempre os clínicos estão preparados para fazer o diagnóstico de depressão, que é uma doença que costuma estar associada a vários sintomas de ansiedade e à insônia, Ao invés de prescrever ao paciente um antidepressivo, o clínico lhe prescreve o Rivotril, que não tem efeito antidepressivo, mas ajuda sim a melhorar a ansiedade e até a regularizar o sono. Essa pessoa vai buscar manter o uso do Rivotril, melhorando alguns aspectos do seu problema mental, mas sem resolver o cerne da questão, que é a depressão, com o risco, dessa forma, de cronificá-la.
2 – Quais são os efeitos colaterais do consumo de Rivotril?
O Rivotril e a classe dos benzodiazepínicos como um todo são medicações extremamente seguras, com um dos mais elevados índices terapêuticos entre todos os psicotrópicos, isto é, há uma margem muito grande de uma dose que cause um efeito terapêutico em relação à dose que cause um efeito tóxico. Mesmo quando consumidos em excesso numa tentativa de suicídio, a sua letalidade é mínima.
Os efeitos mais comuns são a sedação, podendo ocorrer, em alguns casos, amnésia para fatos recentes. Quando p Rivotril é utilizado à noite, para dormir, efeitos não são notados. Alguns pacientes podem se queixar de dificuldades para reter informações novas, gerando pequenos esquecimentos, do tipo colocar uma coisa num determinado local e após um tempo não se lembrar mais onde a pôs.
3 – E como ocorre a abstinência desse remédio?
A síndrome de abstinência ou síndrome de descontinuação é um conjunto de sintomas que aparecem quando da interrupção do Rivotril. Os sintomas mais comuns, nesse caso, são tremores, taquicardia, sudorese, espasmos musculares, dor de cabeça, mal-estar gastrointestinal, insônia. Quando o Rivotril é utilizado em doses adequadas, dentro dos limites terapêuticos, e quando a sua retirada é gradual, praticamente não ocorrem sintomas de abstinência. O uso de doses altas por tempo prolongado e a interrupção abrupta da medicação são os principais responsáveis pela síndrome de abstinência.

Raul Tavares