O Demônio do Meio-Dia de volta.

Quem já teve ou tem depressão sabe o quão devastador pode ser essa maldita doença. Porque a depressão não é apenas estar triste. A tristeza todos nós a sentimos uma vez ou outra, quando acontece algo que não nos satisfaz, quando perdemos alguém ou alguma oportunidade. A depressão, por outro lado, é a perda da força vital, do ânimo, do interesse pelas coisas, é a perda daquilo que nos define, da nossa própria essência…
Temo nem chegar perto de descrever as sensações pelas quais passa uma pessoa com depressão. Mas há quem saiba fazê-lo.

O jornalista Andrew Solomon lançou, em 2001, um livro que se tornou uma obra de referência para os interessados no tema, do especialista em saúde mental ao leigo. Em “O Demônio do Meio-Dia – Uma Anatomia da Depressão”, publicado por aqui pela primeira vez em 2002 e que acaba de ganhar uma nova edição (Companhia das Letras, traduzido por Myriam Campello, 584 páginas, R$ 42,50), Solomon nos conta a sua experiência pessoal com a depressão, mas também nos esclarece a história, as causas, os tratamentos e as visões e atitudes da sociedade. Não o escreveu como uma forma de auto-terapia, nem conseguiria, se quisesse, mas para difundir o conhecimento acerca da doença.

Afinal de contas, um jornalista e escritor espirituoso e erudito, com uma infância e juventude bastante normais, salvo por alguma confusão a respeito da sua homossexualidade, veio a ter depressão, e é assim que ele a descreve, em determinado trecho do livro:

“Há um momento, se você tropeça ou cai, antes que as suas mãos se estiquem para impedir a sua queda, quando você vê o chão se aproximando e não há nada que você possa fazer para ajudar-se, um terror que passa numa fração de segundos. É assim que eu me sinto a toda hora… A sua visão se estreita e começa a se fechar; é como se assistir a uma TV com muita estática, onde você mal consegue distinguir as imagens; onde você não vê nem ao menos os rostos das pessoas, a não ser bem de perto. Onde nada tem limites. O ar parece espesso e resistente, como se estivesse cheio de massa de pão. Entrar em depressão é como ficar cego, a escuridão, de início, gradual, então abarcando tudo. É como ficar surdo, ouvindo cada vez menos até que um terrível silêncio se forma ao seu redor”.

Ele veio a ter essa doença que muito já chamaram de “O Mal do Século”. E olha que ele tinha uma vida razoavelmente em ordem, como eu ou como você. A verdade é que todos, afinal de contas, podemos ter depressão. Está aí uma doença realmente democrática e suprapartidária!
O relato de Solomon, por outro lado, é semelhante a muitas histórias que ouço dia após dia no consultório.

Num primeiro momento, tentou entender as razões daquilo que estava sentindo, Buscando algum acontecimento do passado recente ou remoto que pudesse justificar o seu sofrimento:

“Quando se começa a ter uma depressão grave, a tendência é olhar para trás à procura de suas raízes. Cogita-se de onde veio, se esteve sempre ali, à espreita, ou se chegou a você tão subitamente quanto uma intoxicação alimentar”. 

Sentiu o descaso e o descrédito das pessoas próximas e dos colegas de trabalho. Ele descreve como um amigo o abordou, após Solomon ter publicado um material sobre a sua experiência, e comentou que ele parecia ter uma vida “aparentemente perfeita”. Em outro momento, numa conversa com o seu editor na revista New Yorker:

“Um editor da New Yorker recentemente me disse que, em realidade, eu nunca havia estado deprimido. Eu protestei dizendo-lhe que pessoas que nunca estiveram deprimidos não costumam fingir que estão, mas ele não mudaria de opinião. ‘Qual é’, ele disse, ’Sobre que diabos você tem que estar deprimido?… Eu não engulo essa coisa toda sobre depressão’”.

A depressão de Solomon foi tão grave que ele teve de ser alimentado e auxiliado em sua higiene. Mas, enfim, começou a tomar medicações e elas começaram a fazer efeito. Mas, então, ele abandonou o tratamento de uma vez, pois queria “encontrar quem eu era novamente” (frequentemente, pacientes com depressão anseiam para ficarem sem as medicações e serem “eles mesmos” novamente). E ele realmente descobriu quem era: uma pessoa em completo desespero. Voltou ao tratamento e segue tomando as medicações. Sabe que dificilmente ficará sem elas.

Não se trata de um livro de auto-ajuda, que prega o pensamento positivo à moda de alguns best-sellers. É um livro pleno de honestidade e muito bem escrito (e traduzido), e um verdadeiro tratado sobre a depressão.

Portanto, é com muita alegria que recomendo este livro a quem costuma ler as mal traçadas que escrevo por aqui.

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