O futebol e a depressão

A depressão é uma doença tão democrática, isto é, atinge a tantas pessoas em todos os níveis de renda e espectros ideológicos que sempre me pareceu incomum que não se soubesse de casos da doença no meio futebolístico. Os casos psiquiátricos do futebol ficam por conta dos excessos alcoólicos como o do inglês Paul Gascoigne, o envolvimento com drogas de Jobson ou a loucura sifilítica de Heleno de Freitas.
Mas eis que um jogador de alto nível, com passagens por vários clubes importantes do Brasil, como Internacional, Corinthians e Santos, e uma vasta carreira internacional, revela que deu um tempo nos gramados para cuidar da sua saúde mental. Refiro-me a Nilmar Honorato da Silva, mais conhecido como Nilmar, 33 anos, que atualmente defende o alvinegro praiano, que há pouco revelou sofrer de depressão.
Leio no jornal que a doença foi detectada no fim de agosto, quando a esposa do jogador telefonou para o clube para dizer que ele não queria sair do quarto e que estava com medo de ir à rua. Para quem já teve depressão, especialmente se esta era acompanhada por sintomas ansiosos, essa atitude de Nilmar é bastante familiar.
Deve soar estranho para muita gente que um futebolista possa ter depressão, especialmente um que faça parte da minoritária elite de jogadores do pais que ganha muito dinheiro. Para muitos, a depressão precisa ter explicação e os altos salários que Nilmar recebe deveria, digamos, protegê-lo de sentimentos desagradáveis.
Uma breve análise do sofrimento humano desfaz a crença de que a riqueza ou o poder de aquisição de bens materiais traz consigo a felicidade ou, por outro lado, cria uma barreira onde a depressão não penetra.
É frequente que a depressão suceda algum acontecimento negativo, alguma situação estressora, mas não é sempre assim, ela pode simplesmente vir do nada, sem que nem mesmo quem sofra saiba identificar alguma situação de vida desagradável, o que revela o quão patológica é esta “tristeza sem razão”.
Que o diga outro jogador do elenco do Santos, Thiago Ribeiro, que disse, sobre a depressão que sofrera anos atrás; “foi de uma hora para outra; eu estava vindo de lesão, então, não sei o que aconteceu; não foi um problema familiar, nada disso, apenas aconteceu”.
Outro jogador que enfrentou a depressão e se recuperou foi o campeão mundial pela seleção italiana em 2006 e multicampeão italiano, o goleiro da Juventus Gianluigi Buffon. Para ele, também foi uma experiência repentina, quase incapacitante, que o fazia ter receio de sair de casa e treinar.
Jogadores consagrados e outros nem tanto, gente comum como eu ou você, como o seu amigo, o seu pai ou o seu companheiro, ninguém está verdadeiramente imune a ter depressão.
Mas é incrível o Nilmar está fazendo, não escondendo o que se passa consigo e se dedicando ao tratamento.  Expor-se como ele está fazendo é uma atitude muito corajosa. Vejo com frequência que a primeira atitude que as pessoas têm quando passam a sofrer com os sintomas da depressão é esconder o que sentem, sair da presença alheia, buscar o isolamento. Isso tem a ver, sem dúvida, com a desvalorização do sofrimento psíquico e dos preconceitos quanto ao caráter e valor moral de quem está deprimido. O problema é que este comportamento de esconder-se, isolar-se, só traz mais sofrimento e em nada resolve a depressão.
Os jogadores de futebol mais famosos são referência para a garotada que os toma como modelo de conduta, hoje em dia, não somente pelas artes ludopédicas, mas também nos cortes de cabelo e no jeito de se vestir. Pois que todos vejam e se inspirem no que Nilmar está fazendo, um jogador consagrado que revela o seu sofrimento e que nos convida a reavaliar os nossos preconceitos sobre o que é a depressão e como ela pode ser comunicada e combatida.
Desejo a você uma pronta recuperação, Nilmar. Obrigado pela coragem.
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