O luto e o momento presente

O mundo lamenta as vidas perdidas na catástrofe do voo da Chapecoense
O mundo lamenta as vidas perdidas na catástrofe do voo da Chapecoense

Coloco-me entre as milhares de pessoas que lamentaram (na verdade, ainda lamentam e o farão por muito tempo) profundamente a tragédia do voo que dizimou as vidas e as esperanças do time da Chapecoense, dos seus dirigentes e das equipes de imprensa que cobririam a aventura continental do modesto Verdão do Oeste. Desde antes do raiar do dia desta terça-feira 29, quando pude me inteirar dos primeiros relatos da tragédia, que foram acompanhados pela notícia do resgate dos passageiros e tripulantes vivos e se poderia ainda acreditar que a tragédia não fosse tão enorme como de fato foi, um nó se formou na minha garganta, uma tristeza profunda se apropriou de mim e com certa frequência os olhos se me enchem d’água, mais agora com a certeza de que o avião caiu porque ficou sem combustível, o que empresta uma dose maior de inverossimilhança a esta história toda – como assim um avião cair por ficar sem combustível???, e com as histórias que se vão contando sobre cada um dos falecidos, sobre as crianças que perderam o pai, algumas ainda não nascidas.

Muitos já falaram das qualidades da equipe da Chapecoense, dentro e fora de campo, mesmo antes da queda do avião. Pessoas mais gabaritadas do que eu já deram o seu depoimento emocionado sobre o significado daquele voo, sobre a façanha de se disputar a final da Copa Sulamericana, privilégio de poucos clubes brasileiros, e sobre a qualidade dos jornalistas que pereceram, alguns conhecidos localmente, outros nacionalmente – vou sentir particularmente a falta do vozeirão de Deva Pascovicci, a quem conheci ouvindo as transmissões futebolísticas da Rádio CBN. Portanto, vou me deter sobre outro aspecto da tragédia, sobre coisas que tenho ouvido e lido e que interpreto como uma forma de lidar com a dor.
Não me esqueço de uma frase que li  – do autor, eu me esqueci – nos momentos que procederam os ataques terroristas em Paris, em novembro do ano passado, e que dizia mais ou menos que a única coisa a se fazer depois de uma tragédia como aquela era estar abraçado àqueles a quem mais se ama. Estas linhas expressam a disposição que todos têm após se deparar com a morte que chega sem aviso algum, com a falta de controle sobre o acaso, em que basta um breve momento para transformar a alegria e a esperança em espanto e dor: amar mais e dizê-lo mais, estar mais próximo dos entes queridos, fazer as coisas que são mais importantes para si, julgar menos, dar mais graças e ser mais tolerante, preocupar-se menos com miudezas, enfim, como disse um jornalista esportivo, “estar mais atento às pequenas coisas do nosso dia a dia, dar valor para as pessoas que nós gostamos, os nossos familiares… a gente tem que viver o hoje… não sabemos o que vai acontecer conosco”, que significa, em outras palavras, conectar-se com o presente, com o aqui e o agora. Se a vida, o nosso bem mais precioso, pode nos ser tirada assim tão insensatamente, a solução é vivê-la com o máximo de intensidade possível. Claro que isso não resolve a tristeza, e nem é esperado que o faça, pois não se pode consertar o passado e é ele que nos crava este punhal no peito.
Mas será que é fácil viver a vida mais intensamente? Basta querer e pronto? O encontro com vários pacientes ao longo dos anos me mostrou que a incapacidade de se conectar ao momento presente está associado a muitas patologias mentais, como a depressão e os transtornos ansiosos. Apesar de que só possamos, fisicamente, viver no presente, insistimos em viver em nossa cabeça e ela costuma estar preocupada com o futuro ou remoendo o passado. Mas nem é preciso que se tenha algum problema psiquiátrico para que se verifique que temos passado boa parte do tempo avaliando e julgando as ações que tomamos ou deixamos de tomar, ou acreditando que o futuro que prevemos de fato acontecerá.
Se é tão natural viver em nossa cabeça, é preciso de uma dose de treino e prática para se conectar com o momento presente. A meditação pode ser um caminho para isto, mas mesmo quem nunca meditou pode aprender a conectar-se com o momento presente. Uma das primeiras coisas que se ensina é prestar atenção à sua própria respiração. Mas não é sobre isso que eu quero falar, posso deixar para um outro momento as instruções da respiração. Quero aqui apenas enfatizar como a conexão com os nossos sentidos pode nos conectar ao que está ao nosso redor. Ao privilegiarmos o que estamos vendo, cheirando, ouvindo, tocando e saboreando, estamos envolvidos com o presente, afinal, é através dos 5 sentidos que adquirimos a experiência imediata, o presente, portanto. E como não se pode estar no presente (no reino dos sentidos) ao mesmo tempo em que se está no passado ou no futuro (no reino dos pensamentos), está aí uma maneira de pôr em prática as reflexões surgidas desta terrível tragédia.
Portanto, da próxima vez que apertar a mão do seu amigo, que acariciar o seu filho, que beijar o rosto enrugado da sua avó, concentre-se na sensação física, no toque pele a pele. Já se deu conta de todos os detalhes do rosto do seu filho quando ele sorri? Já se estremeceu vendo aquela magnífica obra de arte, ou aquele incrível pôr do sol? Já se dedicou a escutar detidamente o Magnificat de Bach, ou os passarinhos que cantam no parque? Pode ser que o que se consiga ouvir agora seja o ruído do trânsito, as buzinas, o passo das pessoas nas caçadas, mas, se realmente for este o caso, ouça-o de qualquer maneira: ninguém está dizendo que privilegiar os sentidos é sinônimo de não ter contato com experiências desagradáveis.
A dor é imensa, mas, por mais óbvio que seja, a vida, a nossa vida, continua. É a ação que faz com que a dor seja suportável, e a ação só pode ser tomada hoje. Epitáfio, dos Titãs, é uma linda música, mas ela não precisa ter a ver com a nossa vida.
Força, Chape!
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