O país da depressão

A Jornada Ansiosa, Giorgio de Chirico_1913Internacionalmente, o Brasil mantém uma aura de descontração e leveza, a fama de que tem um povo alegre, e não poderia ser diferente, afinal, cá estamos no país do carnaval e do futebol. Pois bem, parece que, incrivelmente, um título oposto também nos cabe, o de país da depressão.
Isso é o que diz a Organização Mundial de Saúde (OMS), que divulgou dados sobre a depressão  no mundo. Estima-se que 322 milhões de pessoas sofra com este problema, que é caracterizado por uma constelação de sintomas: humor continuamente rebaixado, perda do prazer em atividades que antes despertavam interesse, alteração do apetite, do sono, angústia e, em casos extremos, psicose e suicídio. Somente no Brasil, o braço da ONU para a saúde indicou que 5,8% da nossa população tenha este transtorno, o que representa mais de 12 milhões de habitantes com depressão. É como se tivéssemos uma cidade de São Paulo inteira com depressão.
Além disso, apesar do fato de que haja outras doenças crônicas mais prevalentes do que a depressão, como o diabetes e a hipertensão arterial, este transtorno mental é o que mais leva incapacidade para o trabalho. E ainda há quem duvide que a doença exista ou que pense que não passe de uma “frescura” (há alguém que sofra ou tenha sofrido de depressão que não tenha ouvido isso?).
Em relação aos transtornos ansiosos (grupo que engloba a síndrome do pânico, a ansiedade generalizada, a agorafobia, a fobia social, etc.), o quadro é mais alarmante ainda, pois a estimativa é que 9,3% da população brasileira (mais de 19 milhões de pessoas) padeça deste mal, o que faz do Brasil o campeão mundial nesta categoria. Como é habitual que quem tenha transtorno de ansiedade também tenha depressão, é provável que se conte também aos milhões os afetados por ambas as condições ao mesmo tempo.
Não há uma explicação para estes números. Podemos levar em conta vários fatores como a urbanização, a segurança, a pobreza, a desigualdade social, a situação econômica, mas mesmo sabendo que todos estes fatores contribuem para o problema da depressão, não justificam os índices brasileiros, até porque países com maior população de pessoas com depressão podem até levar vantagem em ralação ao Brasil em vários dos fatores mostrados acima.
A falta de explicação, no entanto, não deve impedir ações públicas que visem combater a doença.
Parece óbvio que o nosso país não está preparado para lidar com tal contigente de pessoas doentes. E quem mais sofre é quem menos tem condições financeiras. Quem não pode pagar um psiquiatra particular ou não tem plano de saúde, tem de recorrer ao serviço público, mas ter atendimento adequado em saúde mental nos postos de saúde é uma raridade. Simplesmente, não há psiquiatras suficientes para atender a todas as pessoas com depressão ou ansiedade. Porém, os clínicos gerais dos postos de saúde raramente se dedicam a tratar estes casos, “eu não posso prescrever esta medicação, só quem pode fazer isso é o psiquiatra”, e dá-lhe encaminhamento ao psiquiatra – mas, qual psiquiatra? Onde ele será encontrado?
Está aí um problema sobre o qual as nossas autoridades da área de saúde poderiam se debruçar. Por que não desenvolver estratégias de enfrentamento da depressão e da ansiedade com o uso de algoritmos de tratamento, com a capacitação dos clínicos gerais e da equipe de Programa de Saúde da Família para a identificação e tratamento dos casos. Não é assim que se faz e que parece funcionar tão bem com problemas como hipertensão arterial e diabetes, e até mesmo em doenças menos comuns do que os dois transtornos mentais, como a tuberculose?
A matéria jornalística do Estado de São Paulo, onde esta notícia foi primeiro publicada, em 23/02/17, pode se encontrada está aqui.
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