O Papa Francisco e a enfermidade mental

Uma conversa franca entre dois líderes religiosos de uma nação em que não se foge dos assuntos espinhosos. É disso que se trata o livro Sobre el cielo y la tierra, escrito a quadro mãos pelo rabino Abraham Skorka e pelo arcebispo de Buenos Aires, o então cardeal Jorge Bergoglio, que no mês passado foi escolhido pelos seus coelgas para substituir Bento XVI, assumindo o nome de Francisco.

Trata-se de uma leitura fascinante de dois líderes espirituais muito capacitados para o diálogo e para os desafios da vida espiritualizada no  mundo moderno. Sem desmerecer o brilho das argumentações do rabino Skorka, este livro de 2010 chama mais atenção hoje em dia por ser uma fonte de conhecimento do que se passa na cabeça do atual Sumo Pontífice e o que ele pensa sobre o debate da religião com a ciência, sobre o celibato dos padres, sobre os casos de pedofilia, sobre o aborto e sobre os fundamentalismos, entre outros temas relevantes.

Gostaria de pontuar uma referência que o cardeal Bergoglio faz sobre o seu contato com pessoas com transtornos mentais. Antes disso, no entanto, é importante dizer o que muitos de vocês já sabem: uma das manifestações de um transtorno mental é o delírio, isto é, o pensamento patologicamente alterado que faz com que o julgamento que temos sobre as coisas que nos cercam seja alterado. Daí, a pessoa dizer que está sendo perseguida pelos vizinhos ou pela polícia, ou dizer que os colegas de trabalho estão armando um complô contra si, ou que todos no metrô parecem saber o que ela pensa e parecem estar rindo e tirando sarro dela. Muitas vezes, as pessoas que sofrem desses problemas não procuram um médico, até porque nem pensam que estão doentes. É frequente que elas procurem uma guia espiritual, como um padre, um pastor, um líder espírita. É aí que entra o discernimento do guia para lidar da melhor forma com essa situação, reconhecendo que ali há uma patologia e que a pessoa deve ser direcionada ao psiquiatra. É certo que muitos líderes não tomam essa atitude, muito pelo contrário, atribuem os delírios a alguma força sobrenatural, aos espíritos obsessores ou aos demônios, e dizem àquele que está enfermo que o remédio para esse problema é orar mais, é ter mais fé, é ir a uma sessão de descarrego. E chegam ao cúmulo de ordenar que o doente pare de tomar os remédios.

O cardeal Bergoglio reconhece a patologia que existe nesses casos e a necessidade de tratamento dessas pessoas. Ele comenta no livro:

pensar que o que se sente quando oramos é uma profecia ou uma revelação para todo mundo é uma ingenuidade muito grande… Às vezes, há coisas que as pessoas sentem e, por uma interpretação ruim ou por um desequilíbrio psíquico, alguns confundem isso com uma profecia. Há pouco tempo tive que atender a uma senhora por telefone que tinha uma mensagem para todos os argentinos, e eu teria que autorizá-la para que a difundisse “para salvar a todos”. Mandou-me a mensagem e vi que ali havia coisas que não andavam bem, imprecisões, erros. Disse-lhe que não podia autorizá-la.

O rabino Skorka complementa dizendo que: existe uma moda de buscar respostas para a solução de problemas físicos ou humanos no sobrenatural… se alguém vem a mim com um problema de saúde, eu o ajudo, lhe dou uma palavra, mas, ao mesmo tempo lhe digo que o tratamento médico deve ser seguido com rigor.   

Palavras sábias e oportunas. Seria bom se toda liderança religiosa procedesse dessa forma.

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