O que é a Clozapina?

A clozapina é um antipsicótico, isto é, uma medicação que trata pacientes que têm sintomas psicóticos.  Por sintomas psicóticos entendemos, principalmente, alucinações e delírios. Estes sintomas estão presentes em algumas doenças mentais e são, sem dúvida, a característica marcante da esquizofrenia. Há vários antipsicóticos para o tratamento da esquizofrenia, como o haloperidol, a risperidona, a olanzapina, a quetiapina. Mas nenhum deles se equipara à clozapina.

Ao contrário do que muitas pessoas podem pensar, a clozapina não é um remédio novo na psiquiatria. Sua fabricação, pelo laboratório Novartis, data dos anos 60 e o seu lançamento no mercado internacional ocorreu nos anos 70. Nesta década, ela foi retirada de circulação na maioria dos países porque o seu uso esteve associado a casos de agranulocitose que resultaram na morte de algumas pessoas.  Somente no final da década de 80 a clozapina foi reabilitada, quando um estudo muito bem conduzido mostrou que esta medicação era capaz de reduzir os sintomas da esquizofrenia nos pacientes que já haviam sido tratados com outros antipsicóticos, mas que mesmo assim não haviam melhorado.

Este foi o grande impulso para que a clozapina voltasse ao mercado dos Estados Unidos, em 1990, e ao nosso, em 1992.

Hoje em dia, a clozapina não é utilizada em qualquer caso de esquizofrenia. Justamente pelo risco de levar à agranulocitose ela só é destinada aos casos de pacientes com esquizofrenia que já tomaram pelo menos dois outros antipsicóticos, mas que persistem com os sintomas de doença.  Estes pacientes têm a chamada esquizofrenia refratária. A agranulocitose é a redução drástica do nível dos neutrófilos, que fazem parte das células do sangue chamadas glóbulos brancos, responsáveis pela primeira linha de defesa do organismo contra invasores como vírus e bactérias. Se os neutrófilos estão com valores muito baixos há o risco de uma simples gripe tornar-se algo mais sério e tomar conta do corpo inteiro, vindo daí uma sepse (infecção generalizada) que pode ser fatal.

As chances de agranulocitose são, todavia, baixas com o uso da clozapina, menos de 1%. Com os hemogramas obrigatórios semanais nas primeiras 18 semanas de tratamento a possibilidade de ocorrer agranulocitose é remotíssima. Isto porque verificando semana a semana os valores dos neutrófilos é muito mais fácil detectarmos quedas importantes e a clozapina pode ser interrompida prontamente, antes que a agranulocitose aconteça. Os hemogramas são semanais nas primeiras 18 semanas de tratamento porque este é o período de maior risco para a agranulocitose, depois  os hemogramas continuam sendo obrigatórios, mas com periodicidade mensal.

Com a experiência de quem trata dezenas de pacientes portadores de esquizofrenia refratária, posso dizer que os riscos com a clozapina são mínimos frente ao benefício que ela traz aos que a tomam. A grande maioria dos pacientes que a utiliza e que há muito tempo sofria com os sintomas de esquizofrenia que não melhoravam com o uso de várias medicações podem, enfim, sentir-se melhor, mais calmos, dormir mais tranquilamente, participar dos eventos familiares como há muito não ocorria, pois também vai frequentar menos as emergências psiquiátricas e as internações.

Infelizmente, a clozapina ainda não é tão utilizada, penso que por conta do temor de muitos psiquiatras de prescreverem essa medicação por causa do risco de queda dos glóbulos brancos. Mas, como vimos acima, o risco é ínfimo com a verificação dos hemogramas semanais.

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