O que se passa com Luis Suárez?

A conduta extemporânea do atacante uruguaio Luis Suárez, que tascou uma mordida no defensor italiano Giorgio Chiellini durante o jogo entre as suas duas seleções, que teve como resultado a vitória e a classificação dos Charrúas às oitavas de final da Copa, repercutiu em todo o planeta e, como não poderia deixar de ser, fui abordado por amigos e até pacientes que queriam saber a minha opinião sobre esse caso, perguntavam-me se Suárez teria algum tipo de transtorno mental. A certeza de que a mente do goleador uruguaio era perturbada era praticamente sacramentada quando a TV mostrava as suas duas outras investidas dentárias em adversários durante partidas de futebol, uma durante o Campeonato Holandês e a outra em jogo válido pelo campeonato inglês.
A minha resposta é que sim, há algo de errado com Luis Suárez. Penso que ele não tenha o menor controle sobre o ato que cometeu contra Chiellini, nem sobre os outros casos semelhantes em que se envolveu. Claro, não chego a saber exatamente que patologia o aflige, aí somente uma conversa com o próprio e com os seus mais chegados poderia levar a tal conclusão.
O jornal El País, de Montevidéu, mostra uma reportagem que tenta buscar no passado do jogador as razões para o seu comportamento, com entrevista a amigos da família Suárez e até mesmo a sua avó paterna. Falam da vida difícil e das privações materiais de Luis, o quarto de 7 irmãos, nascido em Salto, Noroeste do Uruguai. Comentam sobre a separação dos país e da mudança, ainda criança, para a capital do país, onde a mãe iria trabalhar como faxineira, e onde Luis teria uma difícil adaptação. Um psicólogo entrevistado pelo jornal diz que “a mordida se dá naquelas pessoas que tiveram uma infância muito agressiva, muito carente, e é uma forma de se defender de uma agressão externa ou dos mais velhos”, complementando que “no caso de Suárez, é como se estivesse num estágio infantil: diante da agressividade ou de uma situação que o faz transbordar, outros jogadores dão cotoveladas ou pontapés, insultam, e isso no contexto do futebol passa mais desapercebido”. A sua avó diz que Luis Suárez é uma boa pessoa, porém “esquentado desde pequeno”, e vai também pela linha de que o passado determina as ações presentes: “não sei porque tem esses acessos, quando tem tudo para ser feliz, talvez o divórcio dos pais, as privações pelas quais passou.”
É claro que as experiências que temos em nossa infância reverberam em nossa idade adulta, pois servem para definir o nosso caráter (“o menino é o pai do homem”, disse machado de Assis). Mas não são tudo. As predisposições individuais, isto é, os determinantes genéticos, também agem para moldar o nosso comportamento quando adulto, as nossa reações ao estresse. É por isso que dizer que apenas a privação material e a separação dos pais não serve para explicar o caso de Luis Suárez. O Uruguai é um país muito mais igualitário que o nosso e certamente muitos dos nossos jogadores brasileiros passaram, na sua infância, por coisa pior que Suárez.
Independentemente das causas da anormalidade de Suárez, parece-me que ele sofra de uma incapacidade para controlar este impulso que o leva a morder o adversário. Quando se vê a cena do embate entre Suárez e Chiellini na TV, percebe-se que, a princípio, trata-se de uma situação corriqueira num jogo, isto é, 2 jogadores adversários se engalfinhando na grande área, um tentando se posicionar para receber a bola cruzada, outro tentando interceptar a pelota. Só que, de repente, Chiellini gira o corpo e se põe numa determinada posição, com as pás dos ombros se apresentando à face de Suárez. Daí, surge no uruguaio o ímpeto de morder o italiano e esse sentimento é simplesmente forte demais para ser combatido. Essa é justamente a característica da impulsividade, ou do transtorno do controle dos impulsos. A pessoa não consegue resistir a uma propensão, a uma tentação, ainda que ela venha a ser danosa para quem executa a ação e para outras pessoas. O impulso é imprudente e não requer deliberação a respeito das suas consequências. A pessoa não consegue evitar a gratificação que o comportamento vai lhe trazer, não importa o quão ínfimas serão as recompensas ou o quão enormes serão as sanções. Vejam que Suárez já foi reiteradamente punido por mordidas prévias, e foram punições muito duras as que recebeu, já foi afastando por vários jogos dos campeonatos nacionais. Ainda assim, não hesitou em cometer o mesmo delito em plena Copa do Mundo, aos olhos de bilhões de pessoas. Há pessoas que fazem compras de maneira impulsiva, há outras que cutucam a própria pele até sangrar, há ainda aqueles que arrancam fios de cabelo e os que sentem um apelo irresistível ao sexo. Suárez, talvez sendo levado pela tensão e pressão de disputar um jogo decisivo em Copa do Mundo, volta a cometer o seu ato impulsivo: a mordida.
Agora, ele está fora da Copa do Mundo do Brasil e de mais tantos outros jogos nos próximos meses. Perde o Mundial e perde o futebol, pois um dos maiores atacantes do mundo, alguém que demonstrou uma determinação inquebrantável, já que há um mês locomovia-se em cadeira de rodas após uma operação no joelho, tem o seu dom com os pés ameaçado pela falta de controle mental.
Luis Suárez precisa de tratamento. Para o seu próprio bem e para o bem do esporte que amamos.

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