O que você tem é frescura!

Quem um dia já teve algum problema psiquiátrico e nunca ouviu dizer que o que tinha na verdade era frescura que levante a mão.

Praticamente todos os dias há histórias semelhantes no consultório e nas clínicas. Pessoas que estão enfrentando algumas perturbações que  fazem com que se sintam tristes sem que haja um motivo para isso. Essas pessoas também passam a ficar desmotivadas, a não ter vontade de fazer as coisas que costumavam fazer, a não ter o mesmo prazer nas atividades que antes lhe eram agradáveis. Preferem ficar em casa, não querem ver ninguém, não desejam falar com os outros. Querem ficar na cama, apenas.

Assim, a pessoa vai sentindo isso tudo abater-se sobre ela, um mal-estar como nunca havia sentido antes, inexplicável. Então, vem alguém, geralmente uma pessoa próxima, um familiar, dizer-lhe que se levante, que vá fazer suas coisas, que vá trabalhar ou estudar, porque isso o que você tem é frescura!!!

O Houaiss define frescura como frescor, timidez, mas também como melindre. No sentido, digamos assim, que os psiquiatras estamos acostumados a ouvir, o termo define uma atitude de fraqueza moral, indolência ou preguiça, mas, sobretudo, alguma coisa voluntária, algo como se-você-está-assim-é-porque-você-quer! Não passa de uma atitude de negação da existência do transtorno mental e preconceito em relação àqueles que sofrem desse problema.

O quadro que eu descrevi acima é de depressão, mas é comum que qualquer quadro psiquiátrico, principalmente os transtornos ansiosos, como síndrome de pânico e transtorno obsessivo-compulsivo, seja encarado por gente próxima como mera frescura.

Não preciso dizer que essa atitude do parente, no namorado (a), do (a) amigo (a), só tende a piorar as coisas. Primeiro, porque dá àquele que sofre mais razão para se sentir mal, pois ele acaba por acreditar que os problemas pelos quais está passando são fruto de sua própria incapacidade de lidar com as coisas, reforçando a ideia de fracasso pessoal e baixa autoestima que já acompanha o quadro depressivo, Em segundo lugar, e justamente por causa do primeiro, a qualificação do transtorno mental como frescura leva ao adiamento do tratamento, por meses ou anos! Funciona assim, a pessoa acha que pode resolver os problemas por ela mesma, basta ter força de vontade. É o mesmo que eu, com a minha miopia, tentar enxergar essas letras que eu escrevo sem os óculos, utilizando-me apenas da minha própria força de vontade, pois se eu não consigo ver essas letras é por pura frescura…

Por favor, se alguém chegar até você, que está se sentindo um tanto de baixo astral imotivado, e lhe disser que o que você tem é frescura, não lhe dê bola. Ao invés disso, procure um psiquiatra. Os sintomas são mais fáceis de tratar do que o preconceito.

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