O trabalho pode levar à doença mental?

Quem viu “Tempo Modernos”, o clássico de Carlitos, de 1936, não esquece a cena em que ele sai da fábrica em que trabalha e em plena rua repete o gesto que ele é obrigado a fazer durante toda a jornada de trabalho, isto é, apertar parafusos. Não demora muito e lhe põem uma camisa-de-força e Carlitos é internado em um hospício.

Vê-se que não é de hoje que a saúde mental e o trabalho estão associados. Aliás, a saúde mental pressupõe a capacidade de um indivíduo de apreciar a vida e procurar um equilíbrio entre as atividades e os esforços para superar os problemas e mudar de acordo com a necessidade. Dependendo das condições em que se trabalha, esse equilíbrio se perde e a balança pende para o desgaste, para a tensão e para o estresse, levando a uma qualidade de vida deteriorada e daí para um transtorno mental é um passo.

Muita coisa melhorou nas condições de trabalho desde a Revolução Industrial. Os trabalhadores, ao longo do tempo, tiveram vários direitos reconhecidos, houve diminuição das horas de trabalho, férias remuneradas e, entre outros benefícios adquiridos, a garantia de remuneração quando um trabalhador estivesse impossibilitado de trabalhar por conta de doença.

A respeito disso, é cada vez maior o número de pessoas com transtorno mental que tem sido afastadas do emprego e recebido o benefício previdenciário, o auxílio-doença. Basta olhar as estatísticas oficiais do Ministério da Previdência sobre a concessão do benefício para cada CID, isto é, para cada doença registrada na Classificação Internacional de Doenças. As doenças mentais estão no capítulo 5 da CID e começam sempre com a letra F. Nesse quesito, o transtorno mental só perde para as doenças osteomusculares, que englobam as artrose, as doenças da coluna, as tendinites, etc.

Só em dezembro de 2011, quase 10% dos auxílios-doença concedidos foram para aqueles com diagnósticos começando com F. Na verdade, os dados mostram que, somente no primeiro semestre do ano passado, houve um acréscimo de quase 20% no número de concessões de benefícios para pessoas com esse grupo de doenças. O aumento foi quatro vezes o da expansão no número total de novos afastamentos autorizados pelo INSS.

Os transtornos afetivos são principais responsáveis por esse número elevado de afastamento e entre os transtornos afetivos, a depressão tem lugar de destaque. A seguir vêm, na ordem, os transtornos relacionados ao uso de substâncias, os transtornos ansiosos e os transtornos psicóticos.

O que será que está acontecendo com os nossos trabalhadores? Será que a globalização, a competição cada vez mais acirrada por um lugar ao sol no mercado de trabalho está fazendo com que as pessoas desenvolvam depressão e assim percam o ânimo e a capacidade de trabalhar? Será que as cobranças e exigências estão fazendo as pessoas enlouquecerem?

Não sei ao certo. Sei sim que o bem-estar mental depende de vários fatores, entre eles as boas condições de se realizar uma atividade laboral, de ter satisfação naquilo que se faz. Mas há outros fatores que o influenciam e é certo que a vida em centros urbanos, com os seus aspectos inerentes, que envolvem a violência, a moradia, o deslocamento, a migração, além, é claro, das condições de trabalho, está associada a um maior número e transtornos mentais. Afinal, adoece-se mentalmente mais nas grandes cidades do que na zona rural.

Sei também que cada vez mais diagnosticamos quadros de transtorno mental. Os nossos recursos diagnósticos têm se aprimorado e as pessoas estão perdendo a vergonha e o preconceito e assim vêm frequentando os consultórios psiquiátricos em busca de tratamento.

Os números da Previdência não nos permitem saber se o aumento do número de auxílios-doença se deu por um ou por outro fator.

Qualquer que seja o caso, o objetivo da psiquiatria deve ser o de restabelecer a pessoa à sua condição mental ideal para que ela usufrua ao máximo todos os aspectos da sua vida, incluindo o trabalho.

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