Os sofrimentos do Padre Marcelo

Caro Padre Marcelo, entro em contato com o senhor porque assisti a sua entrevista no Fantástico do último domingo, dia 8 de dezembro. E fiquei preocupado com o que vi.
O que primeiro me chamou a atenção foi o seu rosto esmaecido, que apenas nos deixa adivinhar o grau de subnutrição que se esconde sob o velho hábito preto. Como que para provar-me que não se tratava de uma mera impressão, a conversa com a jornalista revela a mudança que ocorreu na sua outrora poderosa voz, que costuma usar para cantar e animar a multidão que o segue, e que ali, na tela da TV, mais me parecia um sussurro. Desculpe-me a ousadia, reverendo padre, mas devo dizer-lhe que a sua expressão e voz escacheladas me transmitiram a imagem de alguém doente. Veja, padre, é que sou psiquiatra e estou acostumado a observar no comportamento das pessoas o indício de algum transtorno mental. As suas palavras durante a entrevista só vieram a confirmar as minhas suspeitas.
Não é de hoje que o senhor tem falado sobre ter tido depressão ou, vá lá, um “princípio de depressão”, como se toda a depressão não tivesse um princípio. Em outras entrevistas, o senhor falou do seu acidente enquanto se exercitava na esteira, o que lhe proporcionou uma lesão no tornozelo que o deixou 3 meses sem poder pôr o pê no chão. Em suas próprias palavras, foi um momento em que chorou e que foi para o fundo do poço. “Não cheguei a tomar remédio antidepressivo, mas o psicólogo chegou a falar pra mim ‘voce está com princípio’ (de depressão)… eu falei, doutor, eu não vou tomar remédio, o meu remédio é a oração”.
Já na entrevista desse domingo, a jornalista inicia a conversa perguntando-lhe se está completamente recuperado da depressão e o senhor diz que está “quase completamente”. Daí o senhor lhe conta da sua dieta de alface e hambúrgueres, com o objetivo de emagrecer. Quando o senhor fala que as pessoas lhe diziam que estava muito magro, mas não acreditava nelas porque se via no espelho mas não se via magro, o que me vem à cabeça é a anorexia nervosa, que é justamente caracterizada pela auto-imagem corporal distorcida, em que a pessoa, contra todas as evidências, não acha que está magra e se engaja em dietas rigorosas e atividade física extenuante para poder perder os quilos a mais que julga ter. Será que além da depressão, o senhor também tem ou teve um quadro de anorexia nervosa? A jornalista lhe pergunta se o senhor não pensa em buscar ajuda, e o senhor lhe responde que nunca buscou ajuda, nunca fez terapia (!). Mas na outra entrevista o senhor não disse que havia conversado com um psicólogo?!

Clique aqui para ver a entrevista do Pe. Marcelo ao Fantástico em 08/12/2013

Padre Marcelo, não queira esconder o sol com uma peneira, o senhor está sim com um problema mental. Não adianta minimizá-lo com isso de “princípio de depressão”. Talvez o senhor precise de esclarecimentos sobre o que é essa doença. Pois bem, entenda que uma coisa é a pessoa sentir-se triste, outra coisa é a depressão, que é uma tristeza que dura muito tempo e que está com a pessoa praticamente todos os dias, o dia todo, e que faz com que a pessoa perca o vigor físico, perca a vontade de se alimentar e que, muitas vezes, está associada a outros quadros psiquiátricos, como a ansiedade, o pânico e a anorexia nervosa.
Não digo que uma pessoa com depressão não possa melhorar e se recuperar sem tratamento, há muitos casos de depressão com remissão espontânea. Mas o seu caso, padre, sinto muito, não me parece ser esse. Pelas suas entrevistas, o senhor já vem sofrendo com isso há alguns anos. Ouça o meu conselho, padre, vá procurar ajuda profissional, vá procurar um psiquiatra, pois o senhor está precisando sim tomar remédios.
Percebo que um passo nesse sentido já foi alcançado. O senhor já reconheceu o problema da depressão. E aqui vai o meu muito obrigado pela sinceridade com que revelou o preconceito que nutria a respeito do tema: “eu achava antes que (a depressão) era frescura, isso é a pessoa que está inventando”. Fico aqui a imaginar o que o senhor terá dito àquelas pessoas que porventura o procuraram para desabafar os seus problemas, pessoas com depressão e que frequentemente buscam primeiro o padre, o pastor ou o rabino, para tentar receber  ajuda e só muito depois procuram um psiquiatra. Terá o senhor desdenhado do que elas lhe diziam, considerando que estavam “inventando”?
Padre Marcelo, sei o quanto pode ser difícil aceitar tomar um remédio, e tenha a certeza que nesse ponto o senhor é um entre tantos que não querem ter que admitir que precisam de medicamento psiquiátrico. Um homem de Deus como o senhor naturalmente conta com a ajuda divina para recuperar-se, daí o senhor recorre às orações, aos jejuns.
Se o senhor concordasse em tomar remédio isso iria significar que a oração não terá sido suficiente para curá-lo, então, será que lhe abalaria a fé se aceitasse tomar uma fluoxetina?
A orientação que posso lhe dar nesse sentido é que o senhor possa exercer aquilo que o senhor disse em determinado momento da entrevista: “eu sou um ser humano, como todo ser humano, eu passo por dor”. Seja então esse ser humano tão comum e com tantas glórias e falhas como tantos outros. Quando sofreu essa lesão no joelho, certamente não contou que apenas as orações pudessem ajudá-lo a recuperar-se, o senhor deve ter tomado medicamentos para a dor, deve ter feito o trabalho fisioterapêutico prescrito. Por que tem que ser diferente com relação à depressão? Por que tomar remédio para a calvície pode e tomar antidepressivo não?
Espero que com essas palavras eu possa ter contribuído um pouco para melhorar a sua situação.

Tenha um Feliz Natal.
Paz e bem.

Deyvis Rocha, psiquiatra.

(Visited 44 times, 1 visits today)