Psiquiatria e Feitiçaria

Não faz muito tempo que a psiquiatria passou a ser encarada como uma especialidade médica.

Não é exagero dizer que na maior parte durante História do homem as doenças mentais eram vistas como obra do sobrenatural.

Durante muito tempo, o advento de uma doença era tido como o próprio Mal (as línguas latinas têm os nomes mal, maladie e mallata como equivalente de doença), como uma feitiçaria ou uma punição divina por atos impróprios. Certamente, durante a Idade Média, pessoas que ouviam vozes e por isso tinham o seu comportamento alterado eram tidas como possuídas por demônios e a fogueira da Inquisição seria-lhe um destino provável.

O pensamento racional e o avanço científico proporcionaram explicações para os fenômenos do dia a dia que antes tinham entendimento místico-religioso. As doenças, por exemplo, passaram a ser vistas como tendo uma causa natural (algo que Hipócrates, o pai da Medicina, já dizia, século IV antes de Cristo), e a Psiquiatria, estruturando-se como disciplina médica na virada dos séculos XVIII e XIX, proporcionou um tratamento diferente e humanizado àqueles que manifestavam perturbação mental.

Só que, ainda hoje, já na segunda década do século XXI, nem todas as pessoas estão convencidas de que ficamos doentes não por força de espíritos ou do próprio Satanás, ou Inimigo, chamem como for, mas por causas genéticas e ambientais. Esse pensamento místico é encontrado principalmente na população socio-economicamente menos favorecida. Não é incomum que o primeiro lugar a que recorrem familiares preocupados com a saúde mental de um ente querido seja uma igreja ou um terreiro. Claro que algumas igrejas incentivam tal comportamento, afinal, as noites e madrugadas de nossa TV aberta estão cheios de pastores que fazem sessões de descarrego e despossessão e que prometem a cura de todos os males, psiquiátricos ou não, bastando, para isso, “ter fé” (dizem que se você não ficar bom é porque a sua fé não é grande o suficiente).

Dia desses, eu estava no meu carro e dirigia pela Zona Sul de São Paulo quando, ao parar no sinal de trânsito, uma daquelas pessoas que entregam panfletos comercias me deu este papel, cuja foto ilustra esse texto. Da mensagem escrita, omiti apenas os telefones de contato que constavam na pequena folha.

Vejam bem, alguém está certamente ganhando dinheiro às custas da ingenuidade e ignorância alheia. O fornecedor do folheto de semáforo promete acabar com todos os problemas das pessoas, sejam eles financeiros ou espirituais, prometendo “afastar” (seja lá o que isso for) a depressão e as vozes, além de inveja e infidelidade.

Alguém duvida que pessoas com depressão ou esquizofrenia estejam entre os clientes de tal charlatão?!

Apesar de todos os avanços da ciência e do conhecimento humano, em alguns pontos o nosso desafio como psiquiatras é o mesmo de séculos passados. 

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