Recarregando o cérebro

Muitos europeus, e também alguns americanos, acabam de voltar de suas férias de verão. Mas alguns de nós passamos nossas férias checando nossos e-mails de trabalho e não desligamos por completo. E é provável que sejamos menos produtivos, no futuro, por isso.

Tony Schwartz, executivo-chefe da Energy Project, confessa que sempre rejeitou a ideia de que é OK relaxar. Seus pais trabalhavam obsessivamente. “Cresci pensando que meu valor pessoal está completamente vinculado ao que eu realizo com meu cérebro a cada momento.” Relaxar o deixava ansioso. Então, há 15 anos, ele leu sobre como atletas de elite priorizam o descanso e a recuperação tanto quanto o treino e a competição. Ficou sabendo que ter o tempo para se renovar é crucial para ter um desempenho de alto nível. “Foi isso mesmo: quanto mais tempo de renovação fui incluindo na minha vida, mais produtivo fui ficando”, escreveu Schwartz, cuja empresa ensina os princípios de “periodização” dos atletas. “Pelo fato de descansar mais regularmente, descobri que, quando eu trabalhava, estava mais energizado, focado e eficiente. Conseguia realizar mais, com mais qualidade, em menos tempo.”

Mais empresas estão começando a perceber que os funcionários que tiram uma folga de verdade do trabalho são mais produtivos.

Conforme noticiou o “New York Times”, a alemã Daimler tem um sistema de e-mails de férias que envia uma resposta automática dizendo que o funcionário está de folga e fornece informações de contato para uma pessoa que pode ajudar. Em seguida, o e-mail recebido é deletado, para que o funcionário de férias não encontre sua caixa de entrada lotada quando voltar. “A ideia é proporcionar uma folga às pessoas e deixar que descansem”, disse um representante da Daimler à revista “Time”. “Assim, elas podem voltar ao trabalho sentindo-se renovadas.” Essa é uma forma de combater a tirania do e-mail, que, segundo o Instituto Global McKinsey, os funcionários gastam 28% do tempo.

Outros estudos sugerem que muitos checam e-mails 74 vezes por dia e que profissionais com smartphones passam até 13,5 horas por dia atrelados ao e-mail.

Parte do problema se deve ao simples volume de informações com que somos bombardeados hoje em dia. O professor Daniel J. Levitin, da Universidade McGill, em Montreal, escreveu recentemente no “NYT” que em um dia normal recebemos informações do equivalente a 174 jornais, cinco vezes mais que em 1986. Assistimos a uma média de cinco horas diárias de televisão, e, para cada hora de vídeo do YouTube visto, 5.999 horas de imagens novas são postadas. Toda essa informação sobrecarrega a capacidade de processamento de nossas mentes conscientes, que é limitada. Nossos cérebros evoluíram para funcionar em dois modos principais: a rede positiva para tarefas e a rede negativa para tarefas, segundo Levitin.

A rede positiva para tarefas age quando o cérebro está concentrado sobre uma tarefa; a rede negativa está ativa quando a mente está divagando, ou seja, sonhando acordada.

Nossa capacidade de focar sobre tarefas nos ajudou a dominar e utilizar o fogo, construir as pirâmides, descobrir a penicilina e decodificar o genoma humano, Levitin escreve, mas ele acredita que esses avanços nasceram do modo do sonhar acordado, em que são feitas as conexões entre ideias e pensamentos, levando a criatividade e percepção.

O problema é que, se passamos tempo demais alternando entre uma tarefa e outra e pensando, se somos interrompidos, não reservamos parte dos recursos cerebrais para a divagação.

Para propiciar a resolução de problemas e o pensamento criativo, precisamos caminhar, ouvir música e tirar uma folga.

“Se pudermos nos treinar a tirar férias regulares -férias sem trabalho- e reservar tempo para sonecas e contemplação”, Levitin escreve, “estaremos em condições melhores para resolver os grandes problemas do mundo.”

Este texto foi publicado por Tom Brady, no caderno The New York Times International Weekly, do jornal Folha de São Paulo, no dia 23/09/2014. Para ler a matéria original, clique aqui.

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