São Paulo: terra dos transtornos mentais

As doenças mentais são muito democráticas, podem atingir qualquer pessoa, independentemente de sexo, crença e condição social. Mas há certos fatores que podem favorecer o seu aparecimento: condições de vida desfavoráveis, violência e migração. Esse caldo social, é sem dúvida, algo que podemos associar à cidade de São Paulo e à sua Região Metropolitana, uma terra de contrastes, retratada em verso por Mário de Andrade:

“Meu São Paulo da garoa,
-Londres das neblinas finas-
Um pobre vem vindo, é rico!
Só bem perto fica pobre,
Passa e torna a ficar rico.”

Assim, não ficamos surpresos quando lemos na Folha de São Paulo que a nossa cidade tem maior prevalência (quantidade de pessoas doentes dividido pela população geral) de transtornos mentais do que outros países. É até curioso que, por exemplo, tenhamos mais pessoas sofrendo por problemas relacionados ao uso drogas do que países como o México e a Colômbia, classicamente relacionados à violência do tráfico de drogas.

O estudo que mostra a prevalência dos transtornos mentais na Grande São Paulo foi conduzido por pesquisadores do Instituto de Psiquiatria (IPq) da USP e pode ser encontrado no seguinte endereço eletrônico: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22348135

A ansiedade é o transtorno mais comum entre todos, atingindo quase 20% da população, em seus diversos matizes: síndrome de pânico, estresse pós-traumático e fobias. Os transtornos afetivos, como a depressão e o transtorno bipolar, ocorrem em até 11% da população e depois temos os transtornos de impulso, com 4,3%, e as síndromes relacionadas ao abuso de álcool e drogas, afetando 3,6% de pessoas na Grande São Paulo. Boa parte dessas pessoas tem mais de um diagnóstico psiquiátrico, por exemplo, é muito comum a associação entre depressão e transtorno de pânico, e entre o uso de substâncias e qualquer outro diagnóstico psiquiátrico.

Uma dúvida frequente das pessoas que vêm ao consultório é sobre a origem do transtorno mental que apresentam. Doutor, qual é a causa disso?, elas me perguntam. É uma pergunta complicada, pois não há uma resposta precisa. Sem dúvida alguma, há o componente biológico, isto é, a herança genética irremediável que a pessoa traz consigo desde a sua formação embrionária e nisso pode estar inserido uma maior predisposição às doenças mentais. Mas, obviamente, não é só isso, e é aí que entram as nossas dificuldades do dia a dia, a violência, o congestionamento, a exclusão social, a favorecer o aparecimento de uma doença. Muito são os pacientes que vêm ao consultório por terem desenvolvido um quadro de depressão ou pânico após serem vítimas da violência urbana.

O estudo sobre as doenças mentais em São Paulo nos ajuda a identificar esses fatores e a constatar que a camada mais desfavorecida da nossa população é aquela que está mais sujeita a um trastorno mental. As pessoas que vivem em áreas mais pobres e periféricas têm maior risco de desenvolver os transtornos. Afinal, é nesses lugares que encontramos as piores condições de vida e suporte social precário, é nessas áreas em que vive a maior parte dos migrantes e onde os índices de violência e de uso de drogas são mais marcantes.

Intuímos de imediato que essa população desfavorecida é também aquela que tem menos acesso aos serviços de saúde. Qual é a chance dessas pessoas conseguirem um atendimento psiquiátrico decente que vá diagnosticá-las e tratá-las? Sendo assim, São Paulo também ostenta o título inglório de ter a maior população que tem doença mental sem tratamento.

Além da falta de acesso aos cuidados psiquiátricos, nunca é demais ressaltar que o estigma, o preconceito e a ignorância sobre as doenças psiquiátricas também afastam as pessoas dos consultórios de psiquiatria.

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