Sobre os psicóticos e os psicopatas

Dia desses eu estava vendo na TV por assinatura um velho sucesso do cinema da época de minha infância, Batman (1989), aquele primeiro filme, dirigido por Tim Burton e estrelado por Michael Keaton. Há muito tempo não o assistia. O áudio era o original e as legendas eram em português. Em determinado momento da película, lá pelo meio do filme , há um diálogo entre Bruce Wayne (Michael Keaton) e Vicky Vale (Kim Basinger) em que ela diz a Bruce o que pensa do Coringa, o vilão da história: “he’s psychotic”. A legenda, naturalmente, deveria vir com o seguinte texto: “ele é psicótico”, que seria a tradução literal e, cá entre nos, nada difícil da frase em inglês. Mas, de alguma forma, a pessoa que fez as legendas do filme escreveu “ele é um psicopata”.

Se a pessoa que vive de traduzir as legendas de um filme visto por milhares de pessoas fez essa confusão, achando que provavelmente psicótico e psicopata são termos sinônimos, o que dizer da população em geral? Sim, há muita confusão com esses termos, o que é admissível, pois são foneticamente parecidos e tem as mesmas raízes etimológicas. Os dois termos têm em sua composição a palavra grega “psique”, que quer dizer mente, alma. E os sufixos de ambas identificam um estado de doença, de sofrimento e de anormalidade. Mas, se existe semelhança fonética, existe uma brutal diferença clínica entre o psicótico e o psicopata.

Psicótico é a qualificação que se dá a determinados sintomas mentais que estão presentes, por exemplo, na esquizofrenia e no transtorno afetivo bipolar, a saber, os delírios e as alucinações. Quando alguém que tem esquizofrenia está tendo um surto, ela pensa sofrer perseguições, crê que é vítima da maledicência alheia, e também ouve vozes que lhe dão ordens, que conversam entre si. São esses os sintomas psicóticos que fazem com que uma pessoa possa agir de maneira estranha, passe a falar sozinha, por vezes até a ficar agressivo, mas não é que a pessoa faça essas coisas porque quer fazê-las, mas porque está atuando sob a influência dos delírios e das alucinações. Assim que o seu quadro é estabilizado, em geral com o tratamento medicamentoso, a pessoa volta a agir normalmente.

Psicopata se refere a uma pessoa que tem psicopatia, ou sociopatia. Trata-se de um transtorno da personalidade, que significa um tipo de anormal de personalidade, que gera na pessoa afetada experiências subjetivas e padrões de comportamento que divergem do comportamento das demais pessoas, que não se modificam com a experiência e causam sofrimento. O psicopata tem uma incapacidade de se adaptar às regras sociais, às leis que regem a conduta das pessoas. Ele costuma ser uma pessoa que não mede esforços para alcançar os seus objetivos, podendo mentir, roubar, trair, ou coisa pior, sem sentir qualquer remorso por aqueles que prejudicou. O psicopata não sofre de delírios e alucinações, ao contrário, ele tem perfeita ciência dos atos que pratica, sabe que vão de encontro à norma, à lei, à ética.

Vê-se que não há qualquer semelhança entre ser psicótico e ser psicopata. Pelo que expus acima, é óbvio que quando se fala em psicopata, a tendência é que manifestemos repugnância e rejeição. Com a confusão de termos, essa rejeição é facilmente passado ao portador de um transtorno psicótico, como a esquizofrenia. Muita gente simplesmente pensa que o psicótico é psicopata. Tive até um paciente que ficou muito incomodado ao descobrir que tinha um quadro psicótico, pois ficou achando que isso significava que ele era um psicopata. Espero com esse texto poder ajudar a esclarecer o tema.

Mas é preciso dar um crédito ao sujeito das legendas do filme Batman. O Coringa, cá entre nós, não tem nada de psicótico, como disse Vicky Vale. Ele é um tremendo de um psicopata, isso sim.

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