Tem risco de eu ficar louco, doutor?

Essa é uma das perguntas mais recorrentes em consultório e até foi uma questão que me fez um leitor deste site.

Creio que muitos por aí, mesmo aqueles que ainda não foram ao psiquiatra, têm essa dúvida. Parece-me mais do que certo que muitas pessoas deixam de procurar um psiquiatra porque isso seria o mesmo que declarar-se louco ou que obter para si um atestado de loucura. E qual é a pessoa que vai ao psiquiatra e que nunca ouviu ninguém lhe perguntar “você é louco?”, ou variações do tipo “o que você tá fazendo num psiquiatra se você não é louco?”, “o que você vai fazer em médico de doido?”

Mas a pessoa que já passou por essa fase crítica e vai ao psiquiatra por algum problema qualquer, como sintomas depressivos ou ansiosos, teme que o seu quadro clínico possa evoluir para um quadro de loucura.

De antemão, é preciso definir o que é essa loucura tão temida. O termo louco é muito impreciso e amplamente utilizado pela população, mas, academicamente, não o utilizamos. Classicamente, o louco é aquele sujeito que perdeu a razão, que tem pensamentos e ações sem sentido, tem comportamentos distorcidos que fogem à regra: é a “alienação mental” de Philippe Pinel, o pai da psiquiatra moderna (cujo sobrenome virou, para nós, o mesmo que loucura), que atuou na França entre o final do século XVIII e o começo do século XIX.

Hoje em dia, podemos dizer que os sintomas psicóticos são o equivalente à loucura empregada nos meios psiquiátricos no passado. Os sintomas psicóticos ocorrem na esquizofrenia e também costumam ocorrem no transtorno bipolar.

Mas as pessoas que têm medo de ficar loucas têm medo mesmo é de perder a razão, o controle sobre sim próprio, sobre os seus pensamentos e os seus atos e de se ver obrigados a tomar um remédio para ficarem bem.

Em psiquiatria, há um velho ditado (que até se utiliza para tranquilizar os pacientes) que diz que a pessoa que está ficando louca não sabe que está ficando louca, o que significa que a capacidade de alguém se preocupar com o fato de poder ficar louco é uma segurança de que isso não vai acontecer.

Sendo assim, um transtorno de pânico ou outro transtorno ansioso, como a ansiedade generalizada, as fobias, uma depressão, não vão evoluir para um estado de loucura e de perda da razão, mesmo que seja essa a sensação que se tem quando ocorre uma crise de pânico.

Pode até ser que a pessoa tenha mais de um diagnóstico, como depressão e esquizofrenia, ansiedade e transtorno bipolar, mas não é que uma doença levou a pessoa a ter a outra, mas é que são quadros diversos que, por genética ou por coisas da vida, atingem a mesma pessoa.

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