Ter transtorno mental não induz à violência

Era a avaliação inicial de um paciente no ambulatório público onde trabalho. Chamei-o para que entrasse no consultório e, enquanto vinha em minha direção, chamou-me a atenção o seu lento caminhar, os seus ombros caídos, a sua expressão facial tensa, o cenho franzido, os cantos da boca dirigidos para  baixo, fazendo com que os lábios tomassem a forma de um “u” invertido. Como diria o meu avô, era “batata” que se tratava de um caso de depressão.
Mas, obviamente, não se faz o diagnóstico de depressão apenas pela inspeção visual, portanto, seja bem-vindo, o que o traz à psiquiatria?
“Olha, eu tô aqui porque eu fui encaminhado pela neurologista, mas o meu problema são dores nas costas, eu tive uma queda há uns 2 anos, rompi a vértebra, sinto muitas dores, mesmo tomando o remédio…. sinceramente, não sei porque ela me encaminhou pra cá, veja bem, eu sou uma pessoa calma, não sou agressivo, não saio por aí quebrando copo, nem gritando, xingando as pessoas… no trânsito, eu sou um cara supercalmo”.
Essa resposta me provocou um profundo mal-estar e a minha primeira reação foi lhe dizer que as pessoas que estavam sentadas ao seu lado aguardando as consultas com os outros psiquiatras e psicólogos também não estavam quebrando nada ou se xingando entre si. Disse-lhe essas palavras com calma, mas urgia-me por dentro um sentimento furioso de revolta, revolta que não era necessariamente direcionada ao senhor que estava em frente a mim, mas sim a este preconceito de que ter transtorno mental é sinônimo de ser uma pessoa violenta. Ele percebeu que eu lhe estava expondo o seu preconceito, fazendo-o ver, pela própria experiência de um breve convívio em sala de espera com pessoas que provavelmente tinham um transtorno mental como ele, que esta ideia que tanto o aterrorizava – ser reconhecido como alguém violento por ter um transtorno mental – não correspondia à realidade.
Não fiquei feliz com a minha resposta, penso que deveria ter me controlado e abordado esta questão de outra forma, menos incisiva, talvez. Ainda bem que não demorou muito para que retomássemos o ponto crucial que havia feito com que ele se deslocasse tantos quilômetros desde a sua casa para me encontrar: qual era o seu sofrimento e como eu poderia aliviá-lo.
Mas aquele pensamento, que classifiquei como preconceito, era também um sofrimento para si. Afinal de contas, acabou sendo difícil distinguir o que lhe pesava mais sobre os ombros, o que tensionava mais a sua musculatura facial: a tristeza penetrante e o desânimo generalizado que definem a depressão, ou todas as coisas terríveis que vinha pensando sobre si desde que a neurologista o encaminhara à psiquiatria – quer dizer que eu posso ficar agressivo? será que sou louco? sou uma pessoa fraca?
Ter uma doença mental não faz com que a pessoa se torne violenta e, sobretudo, pessoas sem nenhum transtorno mental são os responsáveis pela maior parte dos atos de violência que vemos em nosso cotidiano e até em casos mais extremos, como os assassinatos em massa.
É claro que alguns tipos de doença mental, especialmente aquelas em que a realidade pessoal está distorcida por sintomas psicóticos, isto é, por delírios e alucinações, podem cursar com aumento dos comportamentos agressivos. O botão de alarme que fica embaixo da mesa do pronto-socorro em que trabalho e que, se acionado, faz a equipe de segurança correr em meu auxílio, mostra bem isso. Mas trata-se justamente de um pronto-socorro, em que vão até nós pessoas no auge da sua perturbação mental e comportamental. Com o tratamento adequado, quando os sintomas psicóticos estão controlados, não há maior risco de atos agressivos.
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