Transtorno Bipolar: a dificuldade do diagnóstico

Cada vez mais pessoas se autodiagnosticam como bipolares. Há pessoas que acordam se sentindo desanimadas, sem querer sair da cama, mas à medida que as horas vão passando vão ficando mais dispostas, mais contentes, até que passam por algum revés durante o dia de trabalho, como levar uma bronca do chefe, daí essas pessoas podem ficar amuadas, macambúzias, mas chega a noite e e elas vão para a balada, tomam umas e se divertem à beça. Será que isso é ser bipolar?

O Transtorno Afetivo Bipolar sofre com o uso e o abuso pela sociedade de termo ligados a essa doença. Por exemplo, a depressão tende a ser confundida com uma tristeza passageira e a mania que se conhece no dia a dia das pessoas (mais ou menos como um comportamento habitual) não tem nada a ver com o que os psiquiatras pensamos a respeito de mania. Para nós, a mania significa um estado de humor alterado, como se fosse o oposto da depressão: se nessa a pessoa sente tristeza, desânimo, falta de esperança no futuro, sente baixa autoestima, tem os pensamentos e as ações alentecidas, na mania a pessoa tem o pensamento a mil, tem vontade de fazer várias coisas ao mesmo tempo (ainda que consiga terminar poucas dessas coisas), fala bastante e nem espera que os outros terminem de falar para já ir dizendo o que pensa; a pessoa também se sente muito feliz, mais inteligente, mais capaz do que os outros, pode ficar bastante irritada, sua autoestima está nas alturas e ela se mete em vários comportamentos de risco, como gastar excessivamente ou beber bastante; como a sua energia está muito grande e a pessoa se sente “ligada no 220”, ela dorme muito pouco e não se sente cansada por isso. Quando um paciente se apresenta para nós com esse quadro descrito por último, dizemos que ele está “em mania” ou com um “quadro maníaco”. É claro que dizer que uma pessoa é maníaca soa bem diferente se não é um psiquiatra que está falando, pois quando se fala em maníaco, população pensa em um assassino cruel e não em alguém que sofre de bipolaridade.

Outro grande problema quando falamos em Transtorno Afetivo Bipolar é que o seu diagnóstico é clínico, isto é, baseia-se na entrevista, na conversa com o pacientes e com as pessoas próximas ao paciente. Não há um exame de sangue ou de cabeça que nos ajude a dar este diagnóstico. Por isso, muitas pessoas só vão ter o diagnóstico correto após um bom tempo de doença.

Claro que os quadros francos de depressão e mania (ou euforia) descritos acima são clássicos, que nós costumamos chamar de “casos de livro”, pois são iguais aos que vemos em livros-texto de Psiquiatria. Aí, o diagnóstico não é tão difícil. O problema são os transtornos mais sutis, de menor intensidade, como, por exemplo, a hipomania, que se manifesta como os mesmos sintomas do quadro de mania, só que em um grau menor e com um nível de irritação que é mais pronunciado. Para piorar, a pessoa às vezes manifesta sintomas comuns aos dois quadros clínicos, como tristeza intensa, falta de vontade para fazer qualquer coisa, pensamento a mil, insônia, agitação e impulsividade. Antes de tomar um estabilizador de humor, que é a medicação adequada para esses casos, a pessoa chega a tomar vários antidepressivos, sem resposta adequada e só piorando dos sintomas.

Por fim, se alguém chega ao consultório com sintomas de depressão, não é muito fácil discernir se estamos diante de um paciente com depressão única e exclusiva, ao que chamamos de depressão unipolar, ou se estamos encarando um paciente que está tendo uma fase do transtorno afetivo e que mais para frente pode desencadear uma crise de mania. É a depressão bipolar. Talvez a pessoa até já tenha tido antes um quadro de euforia intensa e de agitação que tenha durado alguns dias, mas ela geralmente não se dá conta de que isso foi uma perturbação e não relata esse episódio ao médico que está tentando fazer o diagnóstico. Pode ser então que o diagnóstico só seja esclarecido depois que essa pessoa com depressão bipolar toma um antidepressivo, pois essa medicação pode provocar o que chamamos de “virada maníaca“, que quando o paciente desenvolve sintomas de mania pelo uso de antidepressivos.

A bipolaridade é bastante complexa, mas certamente não deve ser confundida com as alterações de humor que temos ao longo do dia, que estão de acordo com as coisas que nos acontecem e não chegam a atrapalhar a nossa vida, o nosso desempenho.

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