Um novo nome para a esquizofrenia

Numa tentativa de diminuir o estigma associado à esquizofrenia, a Coreia do Sul modificou o nome pelo qual essa doença era conhecida.
Não se pode dizer que a mudança do nome de uma doença seja um fato novo. Hoje em dia, conhecemos por Hanseníase o que desde tempos bíblicos se chamava lepra. Na verdade, não é que o seu nome tenha mudado, a lepra continua sendo a lepra, mas como o estigma associado à doença, que também data dos tempos da Bíblia, prefere-se chamá-la com o termo que homenageia o descobridor da bactéria que causa a doença, o norueguês Gerhard Armauer Hansen.
Um aparte para falar sobre o que vem a ser estigma, termo de origem grega que significa uma marca, uma cicatriz perdurável. Metaforicamente, na psiquiatria, a palavra estigma designa a persistência quase universal de conceitos, atitudes e discriminação social imputados às pessoas que sofrem de transtornos mentais.
Na Coreia do Sul, em janeiro de 2012, a Associação Coreana de Neuropsiquiatria mudou o termo original para esquizofrenia, jungshinbunyeolbyung (transtorno da mente partida/dividida/cindida), por johyeonbyung (algo como transtorno da falta de afinação). Johyeon significa literalmente “afinar um instrumento musical de corda”, o que, no caso da esquizofrenia, seria uma metáfora para a afinação dos acordes da mente. Este novo termo foi inspirado num texto budista escrito por um monge coreano em 1579: “Assim como um instrumento de cordas mantém o seu próprio som com a tensão apropriada, a mente humana também precisa da afinação adequada para manter as suas funções”. Sendo assim, a palavra johyeonbyung traz consigo a ideia de que a esquizofrenia é uma doença do cérebro na qual os circuitos neurais estão sem a afinação adequada.
O termo jungshinbunyeolbyung foi cunhado em 1937 e o seu significado é praticamente idêntico ao da palavra esquizofrenia. Em 1911, o psiquiatra suíço Eugen Bleuler, mudou o nome da doença descrita anos antes por Emil Kraeplin como Dementia Praecox (Demência Precoce). Chamou-a de esquizofrenia, que é a junção de duas palavras gregas skhizein (cingir, dividir) phrēn (mente, espírito), o que, cá entre nós, traz muita confusão, pois faz pensar que a esquizofrenia é o mesmo que dupla personalidade. É interessante que na Coreia, ao invés de usarem uma adaptação para o idioma local do nome grego da doença (como ocorreu nas principais línguas ocidentais: schizophrenia nos países de língua inglesa, esquizofrenia em espanhol e português, schizofrenia em italiano, schizophrénie em francês e Schizophrenie em alemão), eles tenham traduzido o significado do termo grego para a sua língua.
Na sociedade coreana, onde a honra pessoal é muito valorizada e é uma parte importante da cultura do povo, o nome antigo da doença trazia consigo uma enorme carga negativa. Tanto os pacientes como os seu familiares sentiam-se envergonhados pelo significado literal do nome da doença. O preconceito associado ao nome fazia com que muitas pessoas deixassem de procurar a ajuda apropriada nos estágios iniciais da doença. A ideia de denominar de maneira diferente dos coreanos talvez tenha se baseado na mudança ocorrida em outro país asiático, o Japão, que em 2002, mudou o termo para esquizofrenia no país, seishin-bunretsu-byo (transtorno da mente cindida), para togo-shitcho-sho (transtorno de integração), por causa dos mesmos problemas que acometiam os coreanos. O novo termo fez com que esse diagnóstico fosse dado de maneira mais frequente e também contribuiu para que as pessoas com esse problema aceitassem ser tratadas.
Cada país tem a sua cultura própria e deve, de acordo com ela, encontrar as melhores maneiras de lidar com o estigma e o preconceito contra as doenças mentais. Alguns optaram pela via de mudar o nome da doença. Não sei se seria cabível fazê-lo no Brasil, ainda que isso até me estimule a pensar em qual seria o nome mais adequado para a esquizofrenia entre nós.

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