A depressão e os pilotos de avião

Melancolia, Edvard MunchDesde que o copiloto da aeronave da Germanwings fez cair o avião que transportava 150 pessoas, entre passageiros e tripulantes, nos Alpes Franceses, há quase dois anos, a  atenção sobre a saúde mental dos pilotos de avião tem sido bem grande. Em geral, paira uma atmosfera de medo em discussões sobre este assunto, afinal, se para muitos a viagem de avião em si é algo perturbador, a possibilidade de que o piloto possa não só ser depressivo, mas também suicida – coisas que, aos olhos de muitos, têm valor equivalente – incita verdadeiro pânico. Você entraria num avião se soubesse que o piloto da aeronave tem depressão?
Não se envergonhe em dizer que não, isto é apesar reflexo do que acontece em nossa sociedade e nos meios de trabalho quando se trata de um trabalhador com depressão ou qualquer outra doença mental. A regra é que o trabalhador se cale, não se deixe notar, esconda que se sofra de depressão ou que vá ao psiquiatra ou psicólogo para tratá-la (algumas pessoas até aceitam tratar-se com psicólogos, pois faz pensar que o problema não seja tão sério; ir ao psiquiatra é só para os loucos!). Quem sofre de depressão imagina logo que vai se julgado pelos colegas de trabalho, ou, pior, pelo chefe, e que este julgamento vai ser tão impiedoso quanto é o seu próprio autojulgamento: “eu fui fraco em deixar isto acontecer comigo, vão se afastar de mim se souberem que estou assim, a culpa é minha por não saber enfrentar os meus problemas”. Se o seu chefe ficar sabendo, pode considerar-se desempregado. Se a pessoa estiver em licença do trabalho pelo INSS, assim que voltar ao batente, em breve será demitida.
A classe dos pilotos de avião, uma profissão com alto grau de responsabilidade e exigência, não teria porque ser poupada do infortúnio da depressão, que é uma doença muito democrática, atinge a todos (por volta de 350 milhões de pessoas no mundo), sem poupar raça ou classe social.
Um estudo recente mostra que tanto a depressão como a sua omissão são frequentes entre os pilotos de avião. Em artigo publicado por pesquisadores da Universidade Harvard em dezembro passado, na revista Environmental Health, mostrou que centenas de pilotos de avião de linhas aéreas comerciais em várias partes do mundo podem estar com a doença depressão. Este dado foi obtido através de um questionário que visava identificar sintomas de depressão e pensamentos suicidas que que foi respondido anonimamente (o que incentivava que se reportasse os sintomas de depressão sem medo de represálias ou discriminação) por 1.850 pilotos. Neste grupo, 233 (12,6%) atingiram os critérios para depressão e 75 (4,1%) disseram ter pensamentos suicidas nas duas últimas semanas.
Os autores argumentam que esta alta proporção de pilotos com depressão mostra que eles não estão buscando a ajuda necessária provavelmente por temer impactos negativos nas suas carreiras. Nesta situação, em que o sofrimento que vem com os sintomas da depressão se mistura àquele da vergonha e medo por ter depressão (é o sofrimento “da” doença somado ao sofrimento “pela” doença), a angústia e desespero tornam-se praticamente insustentáveis, e não é à toa que haja pensamentos suicidas – entendo que pensar em suicídio seja uma coisa e tentar, de fato, suicidar-se, seja outra. É natural que um piloto que enfrenta estes problemas possa manter-se afastado temporariamente do trabalho para tratar-se e recuperar-se. Pior, sem dúvida, é voar num estado psicológico precário, em que os erros humanos podem ser ocorrer com maior probabilidade.
Assim, é preciso acabar com o estigma que cerca a depressão. Há vários tratamentos disponíveis que são muito eficazes e a combinação medicação + psicoterapia costuma trazer os melhores resultados.
Como eu penso que as pessoas que estão com depressão grave tenham enorme dificuldade em realizar as atividades mais corriqueiras, preferiria não voar com um piloto que estivesse com este problema. Estes pilotos, na verdade, não deveriam estar voando. Com o tratamento adequado e a remissão dos sintomas, eles regressariam tranquilamente à cabine de comando.
Referência
Airplane Pilot Mental Health and Suicidal Thoughts: A Cross-sectional Descriptive Study via Anonymous Web-Based Survey,” Alexander C. Wu, Deborah Donnelly-McLay, Marc G. Weisskopf, Eileen McNeely, Theresa S. Betancourt, Joseph G. Allen, Environmental Health, online December 14, 2016, doi: 10.1186/s12940-016-0200-6
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